Vítor Catulo

Estive recentemente em Moçambique. Um país, antiga colónia portuguesa – é impossível não se referir como tal enquanto esta geração a que pertenço não for fazer tijolo – que constitui sempre um reencontro para quem lá viveu na infância, na puberdade ou na vida adulta.

No meu caso acresce o facto de ter feito parte do contingente da ONU durante o processo de consolidação do Acordo Geral de Paz assinado em Roma, entre a FRELIMO e a RENAMO, a 4 de Outubro de 1992.

Obviamente que é sempre bom, e saudável para quem vive apenas de saudades daquela antiga “província ultramarina” – atenuando agora a designação – que alguém considerou ser a “Pérola do Índico”, dar um mergulho, pelo menos uma vez na vida, em terras moçambicanas e misturar-se, de xanatas, calções e tshirt com o seu povo: geneticamente humilde, hospitaleiro e atencioso.

Moçambique deve o seu nome, muito antes da colonização portuguesa, iniciada no século XVI, ao emir árabe Mussá ibn Bique. É interessante conhecer a origem dos nomes,um exercício a que muitas pessoas se não se dedicam a fazer. Mas deviam fazê-lo, talvez fôssemos todos mais cordatos e felizes se nos dedicássemos a entender a origem da “causa das cousas” como escrevia Miguel Esteves Cardoso naquelas crónicas memoráveis que publicava no “Expresso”. Poucos portugueses saberão que a origem do nome desta “ditosa pátria minha amada” de mais de oito séculos, que a todos dá abrigo, teve origem num porto de cal que existia lá para os lados de Vila Nova de Gaia.

Mas adiante que já chega de “sabichanice” entremos na actualidade. Moçambique continua no mapa do coração de quem lá esteve, mas é hoje refém do grande capital vindo da China, da África do Sul e da comunidade indo-paquistanesa, que ocupou o espaço deixado vago pelos portugueses que abandonaram o território no período conturbado da pré e pós independência.

As sanguessugas têm os governantes, directores gerais e presidentes das várias comissões criadas para todos os gostos ao longo dos anos, (um insalubre costume imitado de nós), presos pelo rabo. Untam as mãos dos detentores dos pequenos poderes, pagam-lhes as despesas, levam-nos a passear pelo mundo e pelos resorts que proliferam e olham, porque têm assim as “costas quentes”, com sobranceria qualquer estrangeiro, principalmente se for o português médio, que lhes entre nas lojas. Muitos usam turbante. Devido às fragilidades do país, com a inépcia reinante, sobejamente conhecida, da União Europeia e da cumplicidade dos imperialismos norte-americano e sino(neo)soviético, o islamismo tomou conta da sociedade moçambicana e os dedos gordos dos vendilhões digitam as máquinas de faturar com a mestria ancestral que os caracteriza.

Cidade de Maputo

Cidade de Maputo

A Revolução, que se seguiu à independência (proclamada em 25 de Junho de 1975), foi cruel e impiedosa para milhares de portugueses que por lá deixaram obra. Parece ter-se passado uma borracha na História do país, ocupada agora por hordas de salteadores estrangeiros que nem em Português se expressam e a Diáspora nada lhes diz. De política ninguém fala, é assunto desinteressante, apenas alguns jornais, que poucos lêem, abordam pela rama a problemática social que divide os ricos e endinheirados da multidão de pobres que tomou conta das ruas da capital. Milhões de moçambicanos vivem no mato em regime de subsistência e os bens de consumo, bem como as valências sociais, típicas de uma vida minimamente moderna, são quimeras. O analfabetismo é reinante e as inovações técnicas e tecnológicas não param por aquelas bandas. Nas cidades ouve-se música comercial com letras lamechas a ritmo binário e bebe-se desalmadamente. A Rádio Moçambique (estatal), seguindo directrizes, vá-se lá saber de quem, passa várias vezes por dia, excertos de discursos de Samora Machel, o primeiro presidente da República. Ninguém parece ligar a isso e faz parte do status quo do país. Um cenário algo surreal se tivermos em conta que até tem uma constituição democrática.

Todas as notas de metical (a moeda nacional) exibem a sua efígie como se não houvessem outros heróis da Libertação, como o Dr. Eduardo Mondlane e personalidades de vulto nas artes e nas letras, como Malangantana e Craveirinha!

Completam-se hoje, dia 7 de Setembro, 42 anos sobre a assinatura do Acordo de Lusaka. Dia de má memória para muitos portugueses forçados a abrigarem-se em Portugal e outras paragens, de júbilo para milhares de combatentes da Libertação.

É feriado nacional em Moçambique e não faltarão as comemorações oficiais e os discursos de circunstância proferidos pelos dignitários transportados em carros blindados e vidros fumados, protegidos por gorilas armados até aos dentes.

Mas terá o povo moçambicano, esse povo verdadeiro e genuíno, que se deveria amar e respeitar mas, outrossim está a ser explorado sem vergonha nem pudor, motivos para o comemorar?

 

 

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