Faz pouco tempo, ficamos muito tristes com a o incêndio que consumiu o Museu da Língua Portuguesa, instalado na linda Estação da Luz, no centro de São Paulo.

Enquanto aguardamos que essa injustiçada Fênix renasça das cinzas, presto aqui minha homenagem a todas as pessoas que colaboraram na criação desse magnífico projeto cultural.

E começo dizendo o que está escrito aí em cima no título: toda língua é um museu. É verdade que os falantes transformam suas línguas o tempo todo, de modo que o que se fala hoje não é o que se falava ontem, nem o que se falou cinquenta anos atrás nem o que se falará no próximo século.

Apesar de todas as grandes, fundas, largas e extensas mudanças, porém, existe uma linha contínua de mais de 5.000 anos entre o português brasileiro falado aqui e agora e a língua de uma população que talvez tenha vivido em alguma área nos limites de Europa e Ásia, na região das estepes entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, segundo a hipótese mais difundida.

Hoje chamamos essa língua de proto-indo-europeu, e é dela que parte a linha que chega até nós, depois de ter passado pela Europa oriental, descido a Península Itálica, atracado na Península Ibérica, subido até a Galiza, baixado em seguida pela franja atlântica que se tornou Portugal e embarcado com Cabral até dar nas costas da Bahia e se espalhar por nosso país muito lentamente.

Pouco importa se, nesse longo período e nessa vasta travessia, a língua foi recebendo nomes comolatim,romance,galego,português — esses nomes são meros artefatos socioculturais e sociopolíticos, rótulos colados numa entidade histórica que, repito, é uma corrente contínua, que recebeu, é claro, muitos afluentes ao longo do tempo e do espaço, mas que conserva até hoje um núcleo central poderoso.

Por exemplo, quando alguém, no Brasil ou em Portugal, usa o pronome tu, não faz ideia de que esse mesmo pronome, com a mesma pronúncia, é empregado nas remotas terras do interior da Irlanda, na Letônia e na Lituânia, à beira do Mar Báltico, no norte da Europa, assim como na Índia e no Paquistão pelos falantes do chamado hindustâni. Ao dizer tu, reencenamos um gesto fonomorfossintático e semântico-pragmático que se repete desde a pré-história, pois tudo indica que no remotíssimo proto-indo-europeu o pronome de segunda pessoa já era *tu.

Mas não precisamos ir tão longe para encontrar, na língua de hoje, aquilo que, na biologia, costuma se chamar de “fóssil vivo”: alguma espécie animal ou vegetal que sobreviveu a todos os cataclismos geológicos e climáticos e continua por aqui,firme e forte (é o caso do límulo, um crustáceo que frequenta os oceanos há 450 milhões de anos!).

Na nossa língua-museu encontramos muitos desses fósseis vivos idiomáticos que, apesar de muito velhos, continuam vivos e bulindo. Que tal começar pelos nomes dos meses?

Por que será que setembro, outubro, novembro e dezembro não são, respectivamente, o sétimo, o oitavo, o nono e o décimo meses do ano?

Diz a lenda que o fundador de Roma, o lendário Rômulo, instituiu um calendário anual que começava no solstício da primavera, isto é, no mês de março, de modo que setembro, outubro, novembro e dezembro eram, mui logicamente, o sétimo, o oitavo, o nono e o décimo meses do ano.

Mais tarde, outro rei lendário, Numa Pompílio (século VII a.C.?), teria promovido uma reforma, fazendo o ano iniciar em janeiro, como até hoje. Só que ninguém se lembrou de reformar também o nome dos últimos meses, e essa velharia cheia de teias de aranha multisseculares continua em uso em toda a Europa e nas regiões do mundo que sofreram nas mãos do colonialismo europeu.

Mas em português essas peças muito antigas receberam um polimento especial. Pelas mudanças regulares da língua, aqueles meses deveriam terminar em -e e não em -o. Veja como é em espanhol (septiembre, octubre, noviembre, diciembre), em francês (septembre, octobre, novembre, décembre), em italiano (settembre, ottobre, novembre, dicembre).

Em galego (e, por conseguinte, em português) esses meses ganharam um -o por analogia com os outros meses com a mesma terminação (janeiro, fevereiro, março, maio, junho etc.). Mas essa reforminha não atingiu por completo o nome do mês de outubro, que conserva esse ou- inicial esquisitíssimo, em lugar do oi- presente em oito, oitenta, oitocentos, oitavo etc.

Em muitas variedades rurais brasileiras a gente escuta oitubro, uma forma que existiu na língua medieval e que, por circunstâncias históricas variadas, acabou sendo preterida em favor desseoutubro escuro e pesado.

Também é curioso como alguns nomes próprios entraram na língua por uma porta especial, só para eles. O léxico das línguas românicas (derivadas do latim) se formou a partir do caso acusativo (caso do objeto direto), mas algumas palavras, especialmente nomes próprios, não quiseram se tornar meros objetos e conservaram sua forma de nominativo (sujeito).

A mais importante dessas palavras é nada mais nada menos do que Deus: ela é, em português, igualzinha ao que era em latim.

Enquanto os hereges espanhóis, catalães, franceses, italianos e romenos cometeram o pecado mortal de alterar o nome da divindade (Dios, Dèu, Dieu, Dio, Dumnezeu, respectivamente), os galegos e portugueses (estes últimos tão fervorosos que foram os únicos a abandonar os nomes dos dias pagãos e substituí-los pelas feiras que se realizavam na frente das igrejas!) conservaram o nominativo latino Deus. Se o nome tivesse sofrido as mudanças regulares da língua, teria ficado com a forma Deo.

Além de Deus, outros nomes que entraram como sujeitos de pleno direito em português foram Juno, Vênus, Apolo, Cícero, Nero e, o mais eminente de todos, Marcos (eu podia citar Carlos também, que é um empréstimo dos “bárbaros” germânicos!).

Se esses nomes tivessem entrado pela porta do acusativo, teriam ficado com as formas Junão, Vênere, Apolem, Cicerão, Nerão e Marco. Veja que em espanhol se diz Cicerón e Nerón, em francês Junon, Cicéron, Néron, em italiano Giunone, Cicerone, Nerone.

Mas, como canta o ditado, “cada terra com seu uso,cada roca com seu fuso”, de modo que Juno é Juno em espanhol; Apolo em francês é Apollon (direto do grego!), e Vênus em italiano é Vènere — se você está desconfiando que a deusa Vênus (ou Vènere) tem alguma coisa a ver com veneno, venerar e venéreo… pode confirmar suas suspeitas, porque tem mesmo.

Também pela forma do nominativo nos chegaram virago (mulher com aparência masculina, haja preconceito!), que deveria ser viragem, e libido, que deveria ser libidem, mas foi importada muito recentemente, na década de 1930.

Também do latim conservamos outras antigualhas divertidas. Por exemplo, a interjeição Credo! É latim puro, significa “eu creio”.

É a primeira palavra da chamada profissão de fé dos cristãos e que até hoje chamamos justamente de… Credo:“Credo in unum Deum, Patrem omnipotentem, Factorem cæli et terræ…”(“Creio em um Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra…”).

Como as orações católicas foram recitadas em latim durante mais de 1.500 anos (só a partir da década 1960 é que a liturgia, os textos religiosos etc. puderam ser pronunciados nas diferentes línguas nacionais), a exclamação Credo!, como forma de pedir socorro aos céus diante de alguma coisa espantosa, fincou raiz na língua e está aí na boca da gente. Tem variantes deliciosas: creio em Deus Padre, creio em Deus Pai, crendospadre, credo em cruz, cruz-credo, cruzes

Outro latinismo preservado entre nós é cor, com ó aberto, que só ocorre na locução de cor (“saber de cor” ou “saber de cor e salteado”). É a palavra latina cor, que significa “coração”.

Mais uma que, em vez de entrar pelo acusativo (o que teria dado algo como corde), entrou pelo nominativo. Com ela se formou o verbo decorar (de cor + -ar), “memorizar”, que nada tem a ver com outro decorar (“enfeitar, ornamentar”), que tem origem diferente.

Em francês se diz par cœur (“por coração”). E qual a relação da memória com o coração? Muito simples. Para os antigos gregos e romanos, o cérebro era só um monte de miolos que serviam para encher a cabeça: nem de longe suspeitavam que é o centro poderoso da nossa inteligência.

Na concepção deles, os sentimentos, as sensações, a memória, a mente residiam no peito, onde fica o coração. Está lá na Eneida, de Virgílio: quando um guerreiro é atingido no peito, sua alma escapa e vai embora para o Orco.

Por isso é que, até hoje (outro fóssil cultural), costumamos localizar o amor, a paixão, o ódio, a alegria e o sofrimento no coração, que não tem nenhuma culpa no cartório dos sentimentos, já que é o cérebro o responsável pelas dores físicas e emoções psíquicas (o coração só se acelera e quase “sai pela boca” porque o cérebro transmite uma ordem para ele bombear mais sangue e mais depressa pra gente aguentar o tranco!).

O português também é a única língua da família (junto com o romeno) que tem um feminino para o numeral dois, que é duas. Mais uma espécie conservada como fóssil vivo e que nos veio em linha reta do latim clássico.

Outras relíquias que conservamos na nossa língua-museu têm origem nos próprios desdobramentos históricos do idioma. Veja a linda palavra preamar.

É a maré mais alta, em seu nível máximo. Dá para ver o mar ali no final, mas o que essa prea- no começo? É o latim plena (“cheia”) que virou prena, depois prẽa e, por fim, prea, significando o mesmo “cheia” do latim. Preamaré “cheia mar”, “mar cheia”. Mas por que “cheia” no feminino? Porque, na fase arcaica da língua, a palavra mar era do gênero feminino.

Em latim (como em grego, nas línguas germânicas – menos o inglês –, nas línguas eslavas etc.), as palavras podiam ser femininas, masculinas e neutras.

Marem latim era neutro, mas nas línguas românicas a palavra ficou ao sabor das ondas, entre o masculino e o feminino. Em francês se conservou no feminino, la mer. Em italiano, il mare, no masculino. Em espanhol, como dizem deliciosamente os dicionários, o nome é ambiguo: é mais usado no masculino, mas ocorre também no feminino, sobretudo na linguagem poética (como nos lindíssimos versos de Federico García Lorca: “Verde que te quiero verde, / verde viento, verdes ramas, / el barco sobre la mar / y el caballo en la montaña”).

Em português, mar já foi feminino, e essa relíquia de gênero está presente não só em preamar como também em seu antônimo, baixa-mar.

E o Dicionário Houaiss nos presenteia com essas observações, no verbete mar: “hipóteses variadas, até de linha psicanalítica, já foram feitas sobre essa variação do gênero da palavramar, atentando até para a maior ou menor intimidade de povos pescadores com o oceano, encarado ora como mãe que nutre, ora como inimigo por vencer”. Freud explica?

E já que falamos do mar, por que a parte do oceano mais distante da terra é chamado de alto mar? Porque em latim o adjetivo altu- significava “grande para cima”, mas também “grande para baixo”, isto é, “fundo”. É mais uma relíquia que conservamos, porque só nesse uso é que alto significa “fundo”, já que o adjetivo se especializou na língua para significar apenas “elevado”.

Uma palavra que sobreviveu a uma extinção em massa na língua foi conteúdo. No português medieval, os verbos da segunda conjugação tinham seus particípios passados terminados em -udo: sabudo, perdudo, vendudo, o deliciosoconhoçudo (de conhocer, antepassado do atual conhecer) etc.

Assim, o verbo ter e toda a sua grande família apresentavam particípios como teúdo, conteúdo, deteúdo, manteúdoetc. Em fase posterior, a segunda conjugação viu seus particípios transformados pelo modelo da terceira (partir, partido etc.), e é por isso que hoje temos sabido, perdido, vendido, conhecido, tido, mantido etc.

Mas o particípio conteúdo fugiu da metamorfose exilando-se na classe dos substantivos, e é por isso que hoje temos duas palavras: contido, como particípio e adjetivo, e conteúdo, como substantivo.

Os particípios medievais teúdo e manteúdo se conservam na expressão teúda e manteúda que se usava (ou será que alguém ainda usa isso, meu Zeus?) para falar de uma mulher que era tida e mantida, ou seja, sustentada por um homem, em geral casado legalmente com outra.

Os velhos disfarces da monogamia hipócrita, essa instituição falsa e furada desde sempre.

Você já deve achar que, a essa altura, é chegada a hora de terminar esse texto. É chegada? Como assim? Alguns verbos (todos intransitivos) faziam seus tempos compostos, séculos atrás, com o verbo ser e não com os verbos ter ehaver.

É o mesmo que acontece até hoje em francês e em italiano (aliás, em alemão também) com verbos do tiponascer/morrer, subir/descer, chegar/partir, ir/vir etc.

Dessa época só nos sobrou esse é chegado, além do famosíssimo ditado, “agora é tarde: Inês é morta!”, em lugar de está morta ou simplesmente morreu. Que Inês é essa? Vá ler Os Lusíadas para descobrir ou, se der preguiça, consulte Inês de Castro na Wikipédia.

Para terminar, um fóssil linguístico-cultural que deve remontar à pré-história. Todos nós sabemos que a alternância do dia com a noite se deve à rotação da Terra em torno de si mesma.

Apesar disso, até hoje falamos de nascer do sol e pôr do sol, embora o astro-rei não tenha nenhuma participação no caso. É que esse conhecimento astronômico é muito recente: Copérnico morreu em 1543 sem divulgar sua descoberta, Giordano Bruno foi queimado na fogueira pela Santa Madre Igreja em 1600 por defender a ideia, Galileu foi perseguido pela mesmíssima Santa e por pouco não teve fim igual, de modo que só mesmo lá pelo século XVIII é que a certeza de que a Terra não é o centro do universo começou a se firmar nas consciências (e só na das sociedades dotadas de conhecimentos científicos avançados).

Muito pouco tempo mesmo, já que a concepção do dia e da noite como resultantes de movimentos do sol deve ter se impregnado na imaginação dos seres humanos já nos primórdios da existência do Homo sapiens, uns 200 mil anos atrás!

 

PUBLICAÇÃO > JORNAL DO ROMÁRIO
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