O termo sotaque, que só existe em português e tem etimologia desconhecida, corresponde ao que em outras línguas se designa por acento (accent em inglês e francês;acento em espanhol; accento em italiano; Akzent, em alemão), termo técnico também empregado em português.

Os sotaques se caracterizam por traços segmentais e por traços suprassegmentais. Os traços segmentais se referem a pronúncias características dos sons da língua: por exemplo, o “S chiado” dos cariocas, o “R caipira”, as vogais pretônicas abertas dos falares nordestinos são traços segmentais. Os traços suprassegmentais têm a ver com a prosódia, isto é, com fatores como entoação, duração, linha melódica etc. É muito comum as pessoas usarem metáforas como “arrastado”, “cantado”, “ríspido”, “suave”, “bruto” etc. para se referir aos sotaques.

Os sotaques são as manifestações mais imediatas da identidade linguística dos falantes. Ao abrir a boca para falar, todo e qualquer falante, de toda e qualquer língua do mundo, exibe os traços prosódicos característicos de sua variedade linguística, de sua região, de sua classe social etc. São poucas as pessoas que conseguem, por uma aptidão natural ou por esforço consciente, “falar sem sotaque” — uma expressão que, embora muito usada, é uma contradição em termos e vamos ver por quê.

Quando dizemos que alguém, ao falar sua língua (a questão das línguas estrangeiras é diferente), fala “sem sotaque”, o que estamos realmente querendo dizer é que essa pessoa fala de um modo mais próximo do sotaque que, por razões exclusivamente históricas e socioculturais, se transformou numa espécie de “fala neutra” da língua nacional. O exemplo mais famoso é o do inglês britânico e de sua chamada Received Pronunciation(RP), que também recebe os pomposos nomes de Queenˈs English (“Inglês da Rainha”),BBC English (“inglês da rádio BBC”), Oxford English (“Inglês da Universidade de Oxford”). Essa pronúncia-padrão se baseia nos modos de falar das classes sociais mais prestigiadas da região sul da Inglaterra, onde, não por coincidência, ficam a capital Londres e a cidade de Oxford, sede da famosíssima universidade, tão antiga que não se sabe exatamente quando foi fundada (os registros mais antigos remontam ao ano de 1096.). Assim, na Inglaterra, “falar sem sotaque” significa, de fato, falar com o sotaque das classes altas do sul da ilha.

No Brasil, como se sabe, a pronúncia-padrão é aquela resultante de uma síntese das falas das camadas mais letradas das grandes cidades da região Sudeste, depois de eliminados os traços segmentais mais característicos. É a pronúncia que se emprega no Jornal Nacional, da Rede Globo, que é até hoje (infelizmente) um dos programas de televisão mais assistidos do país. O apresentador William Bonner é o locutor-símbolo dessa pronúncia. Pesquisas realizadas por linguistas em todo o Brasil revelaram que uma grande maioria de brasileiros, ao serem indagados de como gostariam de falar, responderam: “Como os locutores do Jornal Nacional”.

Essa pronúncia-padrão assume um caráter “neutro” devido aos seguintes aspectos, entre outros:

• não apresenta o “S chiado” característico do Rio de Janeiro; em lugar dele, ocorre o [s] “sibilado”;
• não apresenta o [ɾ] simples vibrado em sílaba travada, característico da fala paulistana, nem o [x] uvular de alguns falares cariocas; em lugar deles se usa uma aspiração leve, [h];
• apresenta as consoantes [ʤ] e [ʧ] diante de [i] (“djia”, “tchitchia”), características das variedades carioca, paulistana e belo-horizontina; isso porque a pronúncia não palatalizada dessas consoantes remete imediatamente a falares nordestinos;
• apresenta a semivogal [ʊ] na pronúncia do -l final de sílaba e de palavra, que também é comum às variedades carioca, paulistana e belo-horizontina;
• evita o fechamentos das vogais pretônicas [e] e [o] em [i] e [u], como em menino, começo, pedir, moeda etc., pronunciando as vogais de um modo mais próximo do que está escrito.

 

Esse modelo de pronúncia é imitado, com maior ou menor sucesso, por locutores de rádio e televisão de outras regiões do Brasil. Mais uma vez, tal como no caso do inglês britânico, falar português brasileiro “sem sotaque” é falar como alguém das classes urbanas mais letradas da região Sudeste.

Na verdade, essa pronúncia-padrão sintética se aproxima em grande medida, no que diz respeito a seus traços fonéticos (mas não prosódicos), da fala mineira mais característica da região de Belo Horizonte. Isso porque, historicamente, essa variedade já representa uma síntese de diversos falares brasileiros. Quando, no final do século XVII e início do XVIII, foram descobertas as ricas jazidas de ouro da região que, justamente por isso, passou a se chamar Minas Gerais (até então o território fazia parte da província de São Paulo, que se estendia até o Mato Grosso atual), ocorreu uma verdadeira “corrida do ouro” dirigida para lá. Vieram brasileiros de todas as demais regiões na esperança de enriquecer com a exploração do minério precioso e, junto com eles, uma verdadeira multidão de escravos negros, trazidos principalmente das lavouras açucareiras do Nordeste, então em declínio. Esses escravos é que seriam os escavadores das minas. Além disso, um grande contingente de portugueses, cerca de trezentos mil ao longo do século, também vieram da Europa em busca de riqueza. Nesse processo, o contato linguístico sem dúvida foi intenso entre (1) os brasileiros, que já falavam suas modalidades de português e que decerto, sobretudo os (2) paulistas, ainda empregavam a língua-geral de base tupi, (3) os escravos, que falavam suas línguas ancestrais e também o português resultante dos contatos entre essas línguas e o português colonial, e (4) os portugueses, que, no século XVIII, sem dúvida já falavam a modalidade de português europeu resultante das grandes transformações ocorridas na língua na virada do século XVII para o XVIII. A variedade mineira dessa região aurífera é, talvez, a que melhor representa uma síntese das muitas correntes linguísticas que confluíram para a formação do português brasileiro mais característico: a indígena, a africana, a brasileira e a portuguesa.

O sotaque exerce um forte papel nas avaliações socioculturais que os falantes da língua recebem em suas interações sociocomunicativas. Devido às condições socioeconômicas de determinadas regiões, as falas características desses lugares receberão avaliação positiva ou negativa de acordo com o prestígio político e/ou a importância econômica da região. Isso explica a forte carga de desprestígio que pesa sobre as variedades nordestinas, identificadas com uma região tida como “atrasada” politicamente e “subdesenvolvida” economicamente. Um falante nordestino no Sudeste é facilmente identificado por seu sotaque e, em decorrência disso, pode vir a sofrer muita discriminação. Prova disso é o emprego recorrente de personagens nordestinos em novelas de televisão, sempre interpretados por atores e atrizes não nordestinos que falam com um sotaque estereotipado e exagerado, com o fim de obter efeitos de humor e depreciação.

A autodepreciação também é um fenômeno corrente, provocado pela depreciação que determinados sotaques sofrem quando confrontados com outros, mais prestigiados. Assim, muitos nordestinos confessam não gostar de seu modo típico de falar a língua e procuram adquirir os traços segmentais e suprassegmentais das variedades de maior prestígio. Falantes do “dialeto caipira”, quando vão para as grandes cidades, principalmente São Paulo, tentam apagar os traços mais característicos de suas variedades linguísticas.

Na prática pedagógica, é muito importante que o docente esteja atento aos mecanismos de discriminação que podem ser ativados com base nos sotaques de seus alunos. Principalmente quando a sala de aula é mais homogênea, com alunos nascidos num mesmo lugar, é muito comum ocorrer atitudes de zombaria diante de alunos provenientes de outras regiões. Uma escola democrática e democratizadora tem de respeitar a diversidade linguística e impor esse respeito na formação de seus alunos.

 

PUBLICAÇÃO > PRECONCEITO LINGUÍSTICO
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