O Pavilhão de Portugal na Bienal de Veneza é inaugurado nesta quarta-feira. Com Siza a assistir ao convívio entre os moradores da obra que projectou na Giudecca e os que alojou no Porto, em Berlim e em Haia.

 

“Aconteça o que acontecer, do ponto de vista da satisfação pessoal, nós já temos o nosso Leão de Ouro: de uma obra parada há seis anos, vamos conseguir que ela seja terminada e os apartamentos sejam entregues aos moradores. Por isto, já valeu a pena”.

É com um misto de desprendimento e confiança que Nuno Grande e Roberto Cremascoli se referem à presença oficial portuguesa na Bienal de Arquitectura de Veneza, que é inaugurada esta quarta-feira com a presença do primeiro ministro António Costa na ilha da Giudecca, com Álvaro Siza como figura em foco.

Talvez porque “a necessidade aguça o engenho”, para pegar num ditado bem português, a ausência de um espaço físico permanente do nosso país em Veneza levou aqueles curadores, respondendo a um convite da Direcção-Geral das Artes feito no Verão passado, a encontrar uma alternativa imaginativa para representar a arquitectura portuguesa no evento. Avançaram com o projecto Neighbourhood – Where Alvaro meets Aldo, que é como quem diz, um encontro de vizinhos e de amigos, que levou Siza de regresso a quatro lugares e quatro momentos marcantes na sua carreira e na sua preocupação com a habitação social: o Bairro da Bouça, no Porto; o edifício Bonjour Tristesse, em Berlim (Schlesisches Tor); o bairro Scielderswijk, em Haia; e o Campo de Marte, na Giudecca.

E foi o projecto que o arquitecto português elaborou para a ilha veneziana em meados da década de 1980, e cuja construção haveria de ficar a meio na sequência de vicissitudes diversas, que o “Pavilhão de Portugal” quis agora retomar, em colaboração com os responsáveis locais.

Um pouco à imagem do que aconteceu com o Bairro da Bouça – um projecto anterior ao 25 de Abril de 1974, que a seguir à Revolução integrou o programa SAAL, mas só seria concluído em 2006 –, o programa Neighbourhood teve agora como principal objectivo retomar e concluir o complexo de habitação social na Giudecca, que ficara mais ou menos a meio, tendo sido apenas concluídos um edifício de Siza e dois outros que, a convite do arquitecto português, foram desenhados pelos italianos Aldo Rossi (1931-1997) e Carlos Aymonino (1926-2010), estando também por concretizar o do espanhol Rafael Moneo.

O segundo edifício de Siza, o de Moneo e a praça que os liga no chamado Campo de Marte – que incluirá uma fonte desenhada por José Pedro Croft, já escolhido como representante português para a Bienal das Artes do próximo ano – irão ser concluídos na sequência da iniciativa portuguesa para a Bienal que começa esta semana – a inauguração oficial sendo no dia 28.

 

A batalha da arquitectura

Na véspera de partirem para Veneza, na semana passada, Nuno Grande e Roberto Cremascoli mostraram ao PÚBLICO fotografias que davam conta da preparação do Pavilhão de Portugal, com o edifício que se encontrava em tosco desde há meia dúzia de anos já resguardado por uma cerca e uma rede de obra, e as paredes limpas dos graffiti que ao longo do tempo foram ilustrando o descontentamento da população.

“Na Giudecca, o pessoal já anda a dizer que um ‘Senhor’ vindo de Portugal comprou a zona para acabar a obra”, diz Roberto Cremascoli, arquitecto italiano radicado no Porto há anos, acrescentando que esta é uma situação curiosa, e que contrasta bem com o significado popular da palavra “portughese”, que na sequência da embaixada que D. Manuel I enviou ao Papa Leão X, em 1514, passou a identificar os “penetras”, aqueles que entram sem pagar…

História(s) à parte, Neighbourhood responde de forma inovadora ao desafio que o comissário chileno Alejandro Aravena lançou para a edição deste ano da Bienal, sob o mote Reporting from the Front. “A ideia da arquitectura como uma batalha está expressa no nosso projecto: fomos para uma frente urbana, onde as pessoas estão habituadas a protestar, e mesmo que elas possam não reagir bem no imediato, a verdade é que, no final, irão perceber que foi uma dádiva, modesta, despretensiosa, mas que lhes permitiu acabar uma obra interrompida”, diz Nuno Grande.

Em simultâneo com o retomar das obras – e a expectativa é que, no final do próximo ano, sejam entregues aos moradores 19 novos apartamentos, a acrescentar aos 32 actualmente já em uso, nos edifícios projectados por Siza –, o Pavilhão de Portugal, instalado no rés-do-chão do edifício em estaleiro, vai acolher a exposição Neighbourhood – Where Alvaro meets Aldo.

Numa sequência de cinco espaços – antecipam os curadores –, o primeiro será “uma sala celebrativa” do encontro do arquitecto português com Aldo Rossi, um nome fundamental da arquitectura italiana e mundial, de quem Siza se tornou muito próximo desde que se encontraram na Bienal de Veneza de 1976: terá documentos, desenhos, projectos e fotografias também relativas aos próprios projectos da Giudecca.

As quatro salas seguintes documentarão o regresso de Siza, entre 31 de Janeiro e 14 de Março, às habitações que desenhou para o Porto, Veneza, Haia e Berlim: terá os projectos de cada edifício, fotografias antigas e actuais (estas feitas por Jordi Burch e Nicolò Galeazzi), e quatro documentários relativos às visitas do arquitecto a cada bairro, registadas na série intituladaVizinhos pela jornalista da SIC Cândida Pinto (que serão transmitidos por esta estação nos próximos dias 28 e 29, 4 e 5 de Junho).

 

Nem doutrina, nem demagogia

Com o projecto Neighbourhood, diz Nuno Grande, o Pavilhão de Portugal “não quer fazer doutrina, muito menos demagogia”. “Queremos mostrar como é que Álvaro Siza pensou estes quatro bairros, em quatro contextos completamente diferentes, e como eles foram apropriados pelas respectivas culturas, muitas delas não-europeias, como no caso de Haia, que é um bairro muçulmano com mais de metade dos seus moradores sendo turcos, marroquinos, angolanos, cabo-verdianos, do Suriname…”

“É um bairro muito estigmatizado pela actual política de direita que dirige a cidade, que acha que aquilo é um gueto – chamam-lhe mesmo ‘o triângulo dasharia’”, nota o curador. “A verdade é que nós fomos lá com o Siza, entrámos no bairro e nas casas, vimo-las bem tratadas, jogámos futebol com os miúdos, e não sentimos nada dessa violência”.

Nuno Grande realça que a exposição que esta quarta-feira abre ao público irá permitir confrontar e debater, a partir das viagens aos quatro bairros citados, questões que hoje estão na ordem do dia da arquitectura, do urbanismo, mas também da política. “Estes quatro bairros são o retrato do que é a Europa, hoje; neles podemos sentir as tensões que actualmente se vivem em qualquer cidade europeia multicultural”, nota o arquitecto e professor, citando, como exemplo, temas como a gentrificação, como se pode verificar na Bouça e em Berlim, a guetização, como em Haia, ou a turistificação, como em Veneza – onde a Giudecca surge ainda como um lugar de algum modo preservado da massificação turística que desde há décadas marca o dia-a-dia da mítica cidade italiana.

“Os residentes da Giudecca estão com medo do turismo, e não querem maisglamour; aliás, costumam dizer que a ilha é o único lugar na cidade onde ainda vivem verdadeiros venezianos”, diz Roberto Cremascoli.

 

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