Cantão – prefiro escrever assim, à moda antiga. À maneira daqueles que pela primeira vez viram os chins. O governo chinês faz um esforço grande para recuperar os nomes não ocidentalizados das cidades: Pequim é agora Beijim, Nanquim passou a Nanjim e Cantão é Gouangzhou, como era Kwangchow aquando da chegada dos primeiros europeus.

À beira do Rio das Pérolas (Zhu Jiang em chinês) cujo delta desagua na velha Cidade do Santo de Nome de Deus Macau, capital do jogo e dos aterros, que já aumentou o seu território para o dobro desde que nos obrigavam a saber de cor o que se passava nos seus 16km quadrados no tempo da mestra palmatória.

Cantão ou Gouangzhou; Gouangzhou ou Cantão. Província de Guangdou, também ela chamada prosaicamente de Província de Cantão, onde os portugueses obtiveram o monopólio do comércio em 1511, transformada em concessão franco-britânica após a Guerra do Ópio. Centro histórico da grande diáspora chinesa desde o século XII, marca registada das chinatowns de todas as cidades do mundo, de Sidney a Toronto, de Londres a Chicago. E uma certa rebelião nesta China do Sul, onde se fala cantonês em vez de mandarim e se insiste num menu mais selvagem no qual é vulgar a cobra e a salamandra e se encontram restaurantes capazes de servir gato, macaco e patas de urso.

Luiz Felipe Scolari, antigo selecionador nacional de Portugal, nos alegres dias do país triste de 2004 e 2006, está em Cantão há pouco mais de um ano. Veio substituir Fabio Cannavaro no comando do mais bem sucedido clube chinês dos últimos cinco anos – o Gouangzhou Evergrande.

Passei com ele oito dias nessa Cantão cada vez mais transformada num horizonte de arranha-céus espelhados atravessados por avenidas largas de dez faixas onde se exibem as grandes lojas do universo numa exibição de consumismo de luxo desenfreado ainda há bem pouco ausente da filosofia chinesa. Ferraris e Maseratis cruzam-se na Shennan Lu (lu significa rua) atravessando o arrabalde de Shenzen, uma zona económica especial que bordeja Hong Kong e na qual se encontra mão de obra a preço de saldo, algo que continua a sustentar o crescimento financeiro chinês. Na ilha de Shamian crescem os condomínios privados e, nos jardins destes, restaurantes espanhóis, italianos e franceses a preços indecentes. Em Zhoutouzui, junto ao porto, há ainda um vislumbre das aventuras de Kin-Fo, de Júlio Verne, fugindo por vielas esconsas, por entre cozinheiros de caldos misteriosos, ao destino da sua própria morte.

Luiz Felipe Scolari vive em Zhujiangxingcheng, na Haifeng Lu. Ele e os brasileiros que o acompanham nesta experiência quase lunar, o indefetível Flávio Murtosa, Darlan Schneider (estiveram ambos na Seleção Nacional), Carlão e Ivo Worten, que treinou Costinha e Maniche no Dínamo de Moscovo.

Dificilmente podiam ter tido melhor ano de estreia: o Gouangzhou Evergrande foi campeão da China e venceu a Taça dos Campeões Asiáticos. Em cheio!

Esta época as coisas estão mais complicadas. Eliminado da Taça dos Campeões na fase de grupos – onde teve como adversários o Sidney FC (Austrália), o Urawa Red Diamonds (Japão) e Pohang Steelers (Coreia do Sul) – tem agora uma concorrência aguerrida na luta pelo título graças aos investimentos arrojados do Jiangsu Guoxin, do Shangai SIPG e do Tianjin Teda, por exemplo. O que não evita que esteja na liderança da tabela e confiante e otimista como sempre…

Portugal mexe profundamente com Luiz Felipe Scolari. Durante o tempo em que estivemos juntos não houve uma hora que não se falasse da gente que ambos conhecemos, do que faziam os seus ex-jogadores da Seleção Nacional, de tudo aquilo que faz parte da vida do país.

Brasileiro de alma portuguesa. Com Portugal no coração…

Como estão a correr as coisas no Gouangzhou?

Ótimo! Ótimo! Tudo correndo pelo melhor, tanto no que respeita ao trabalho como no que respeita à minha vida particular. Estou bem. Estou contente aqui!

Já se sente em casa, apesar da distância?

Posso confessar que me sinto aqui como se estivesse no meu país, na minha casa. Boas amizades, um grupo de trabalho muito bom, uma equipa técnica que se conhece há muitos anos, um belo local para viver… E a minha mulher vem visitar-me de vez em quando. Tudo maravilha!

Quando sai pela manhã para caminhar um pouco, Scolari segue por uma grande alameda que segura o calor crescente do dia e a humidade extrema que abafa Cantão. Depois tem o condutor à espera para o levar ao centro de treinos do Gouangzhou Evergrande: mais de hora e meia por entre um trânsito maciço e caótico…

Nota grande diferença de qualidade no futebol chinês?

Vejo, e isso é que para mim é importante, que os meus jogadores têm grande vontade de aprender. São dedicados e esforçados, cumprem com aquilo que lhes é pedido e fazem-no com entusiasmo e alegria. Com uma organização mais sólida, o futebol chinês vai crescer. Não tenho dúvidas!

Tem saudades de Portugal?

Tenho, pois! Muitas! Dos lugares onde estive, das pessoas que continuam a abordar-me na rua com todo o carinho. Dos meus jogadores na seleção portuguesa, todos eles seres humanos ótimos que ajudaram a criar um grupo único em redor da equipa. Portugal faz parte de mim!

Que recorda mais intensamente da sua passagem pela Seleção Nacional?

Lembro-me sempre com muita saudade e com muito carinho do nosso grupo de trabalho, que era extraordinário como você sabe pois esteve presente. Tenho uma amizade grande pelos meus queridos atletas que eram gente do melhor. Sinto falta dos nossos torcedores, que foram únicos e transformaram por completo o país de cada vez que a seleção jogava. Recordo-me do ambiente excelente que todos nós construímos dentro da equipa de Portugal, do clima saudável e alegre vivido por todos. Tenho muitas e muitas memórias…

Diria que foi dos momentos mais bonitos da sua vida?

Não digo que foi um dos momentos mais bonitos de minha vida, eu afirmo de coração que foi o mais bonito!!!

Sente que os portugueses ainda têm um carinho especial por si?

Sempre senti! Sempre! Todas as vezes que vou a Portugal testemunho isso. De cada vez que encontro um português por esse grande mundo, vejo nos seus gestos o carinho que têm por mim. É algo de fantástico e que me deixa agradecido. E vou retribuir todas as vezes porque esse também é o sentimento que tenho por Portugal e pelos portugueses: uma grande ternura.

Às vezes dizemos, na brincadeira, entre nós, que se tivéssemos ganho à Grécia na final do Euro 2004 não precisávamos de fazer mais nada na vida… Foi duro, não foi?

Foi. E ainda é! Custa-me muito aceitar aquela derrota. Ainda hoje penso nesse jogo e procuro encontrar os pormenores em que falhámos e nalguma infelicidade que tivemos, sobretudo a de termos perdido o Miguel muito cedo no jogo, logo ele que estava em grande e a entrar muito na defesa grega. Não há conversa com os companheiros dessa jornada de 2004 que não traga essa derrota ao assunto. É um sofrimento muito grande. Passaram-se doze anos e continuo a sofrer da mesma maneira que sofri nessa noite.

Antes de ter tido sucesso com a Seleção Nacional, teve momentos muito complicados com a imprensa e entrou em várias guerras – entre as quais a do caso Baía. Sente que tomou a decisão certa?

Escuta. É verdade que tive alguns problemas com as minhas escolhas de jogadores. Porque não compactuava com escolha de pessoas que tinham outros interesses e usavam determinados setores da imprensa para tentarem – e quero sublinhar o ‘tentarem’ – pressionar as minhas opções. Conheciam-me mal. Não sou influenciável. Tomei as minhas decisões com a certeza do que entendia ser o melhor para a minha seleção, o meu grupo de trabalho e segui em frente. Não me arrependo de nada. Fiz o que a minha consciência mandou e pouco me importa o que outros queriam que eu fizesse.

Como definiria aquele grupo que formou a seleção portuguesa em 2004?

Trabalhei durante a minha vida de atleta e técnico com muitos grupos, e este foi, de longe, um dos melhores grupos! Havia de tudo nessa equipa – líderes, craques, jogadores consciente das suas limitações, mas todos dispostos a darem tudo o que tinham pelo coletivo. É um privilégio trabalhar com gente assim. Jogavam com a máxima dedicação e tínhamos o povo junto connosco. O país estava junto com a sua seleção, andava com a gente ao colo. Este era o espírito. E era lindo de ver! E de viver!

Tem um filho e um neto em Lisboa – vai lá com muita frequência?

Sim. Claro! Vou a Lisboa pelo menos três vezes por ano para visitar a minha família e os meus amigos. Adoro Lisboa!

Sente que algum dia vai voltar a treinar em Portugal?

Não sei se voltarei a ser selecionador português, não adivinho o futuro. Sei, isso sim, que os anos em que ocupei esse cargo foram anos maravilhosos! E tenho para todos os portugueses um enorme abraço de amizade e gratidão!

 

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