O primeiro volume da “Obra Poética”, de Cruzeiro Seixas, um dos protagonistas do movimento surrealista português, que celebra cem anos em dezembro, chega hoje às livrarias.

A “Obra Poética”, em quatro volumes, é publicada no âmbito da coleção “Elogio da Sombra”, coordenada por Valter Hugo Mãe, para a Porto Editora, numa recolha organizada pela poetisa e escultora Isabel Meyrelles, outro nome do surrealismo português, a par de Mário Cesariny, Carlos Calvet ou António Maria Lisboa.

Os três primeiros volumes da obra poética de Cruzeiro Seixas reúnem poemas já publicados, nomeadamente pelas Edições Quási, mas que se encontravam esgotados no mercado, e o quarto, que encerrará o projeto, em data a anunciar, colige inéditos e dispersos, disse à agência Lusa fonte da editora.

O 2.º volume deve chegar à livrarias no final do ano e, o terceiro, “nos inícios de 2021”, segundo fonte da Porto Editora.

“Nesta vasta obra se encontra um surrealismo pleno, a relação mais indomável que ao espírito humano revela sobretudo o que tem de inexplicável e, ainda assim, profundamente necessário”, escreve Valter Hugo Mãe, na apresentação da obra, para quem Artur Cruzeiro Seixas “ergue a poesia como `a boca que olha`. Tão feita do improvável quanto de presciência”.

Isabel Meyrelles afirma, por seu turno, que a poesia de Cruzeiro Seixas é como “um jorro contínuo vindo de forças obscuras, caldeirão mágico, casamento entre os marabus e as fadas do surrealismo…”.

Meyrelles, também poeta e escultora, nasceu em Matosinhos, em 1929, e fixou-se em Paris, para onde partiu na década de 1950, para estudar na Sorbonne e na Escola de Belas Artes.

A artista, sobrevivente do Grupo Surrealista de Lisboa, com Cruzeiro Seixas, chama a atenção para a importância de África na obra do autor, continente onde viveu e escreveu nos anos de 1950 a 1964.

“A sua obra escrita é sempre datada de `Áfricas` e dos anos [19]50/90, datas que não correspondem a nada de exato, salvo na intenção de confundir futuros biógrafos ou exegetas, e aos seus processos académicos”, escreve.

“Acossado pela guerra colonial”, Cruzeiro Seixas regressou a Portugal em 1964, mas ficou “sempre ligado ao continente africano”, garante Isabel Meyrelles.

Sobre a “Obra Poética”, a artista afirma, no prefácio, não ter sido tarefa fácil “dar alguma ordem e coerência a estas centenas de poemas, que puseram em completa desordem” nas suas mãos. E elucida: “Assim é no papel de velha amiga que tentei estabelecer uma `ordem poética`”.

“Aos leitores caberá deliberar se alguma vez acertei, para além da afirmação de que nada aqui é definitivo”, argumenta a poetisa e escultora.

Os primeiros três volumes da “Obra Poética” incluem “todos os poemas e textos automáticos já publicados”, e o quarto incluirá, entre outros, os inéditos e os poemas que Cruzeiro Seixas publicou em França e Espanha.

Isabel Meyrelles refere que “o surrealismo era desejado (e reinventado) por um reduzido número de indivíduos de forte personalidade e sensibilidade, que resistiram corajosamente ao pernicioso clima político e social da época, e que souberam manter vivo um ideal de liberdade. Nesse tempo nada chegava a este país [Portugal] que não fosse consentido pela polícia de então” e “um desses jovens é Cruzeiro Seixas, pintor, desenhador, poeta, criador de objetos, de colagens, de `cadavres-exquis`, e de mil outras invenções, às quais se entrega de corpo e alma”.

Cruzeiro Seixas “não pode e não quer aceitar a ideia de ARTE, como recusa integrar-se naquilo que designa como a `nova hipocrisia social`” e, prossegue Isabel Meyrelles, “sempre que se proporciona ocasião recusa veementemente a designação de `Artista`, pois quer-se apenas como um homem que desenha ou escreve”.

“Ele põe-se à frente de uma folha de papel e desenha, pinta ou escreve, como um `rêveur éveillé` [`sonhador acordado`]. Nele está bem viva a presença do automatismo surrealista, como está por certo, também, bem viva, a dura experiência da sua vida”.

“Cruzeiro Seixas sempre viveu intensamente, embora não espetaculosamente; quási todos os seus poemas proclamam o amor que praticou, e que é irmão gémeo da própria liberdade”, defende Meyrelles na apresentação da obra.

O movimento surrealista, na opinião de Meyrelles, “aflorou em Portugal” em 1947, “quási sempre por intermédio de pessoas que tinham passado por Paris, ou pelo manuseamento de um ou outro livro escapado à polícia do regime” de ditadura.

Artur Cruzeiro Seixas, natural da Amadora, nos arredores de Lisboa, completa em dezembro 100 anos.

No ano passado, em declarações à Lusa, o artista João Prates, diretor do Centro Português de Serigrafia, disse que o artista continuava “um apaixonado pela vida, sempre disponível para algumas viagens”. As viagens que sempre o interessaram.

Isabel Meyrelles recorda que, em 1950, “sem possibilidades materiais” de o fazer, decidiu “embarcar como simples marinheiro na Marinha Mercante, para alargar o mundo já tão fértil da sua imaginação”.

Cruzeiro Seixas ombreia com Mário Cesariny, Carlos Calvet ou António Maria Lisboa no `precurssionismo` do surrealismo em Portugal, e é autor de um vasto trabalho no campo do desenho e pintura, mas também na poesia, escultura e objetos/escultura.

Está representado em coleções como as do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado, Fundação Calouste Gulbenkian, Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca de Tomar, Fundação Cupertino de Miranda, Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, Museu Tavares Proença Júnior, em Castelo Branco, entre outros.

No ano passado foi editado “Diário não Diário”, que inclui textos inéditos, volume referido por João Prates como “um ponto de situação” da obra de Cruzeiro Seixas.

Entre autores de eleição de Seixas, com importância no seu percurso, constam autores como Paul Verlaine, Arthur Rimbaud, André Breton, Antoine Artaud, e os portugueses Luís de Camões, Mariana Alcoforado, por quem tem um carinho especial, Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Teixeira de Pascoaes e Alberto de Lacerda.

FONTE > LUSA/RTP
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