Por  - na foto: PEDRO CORREA DO LAGO E JONES BERGAMIN

Pedro Corrêa do Lago é indefinível. É maior que o seu currículo mesmo que eu aqui o decline ou esclareça que interpreta a cultura como um modo de vida.

1. Foi como uma vertigem: espantei-me, olhei, procurei, descobri, vi, decifrei, li, fixei, impressionei-me. Perguntei, ouvi, maravilhei-me. Mas seria verdade? Era eu que estava naquela casa onde nunca fora, num jardim que não conhecia, na manhã enevoada de uma cidade brasileira? Era para mim que falava aquele cavalheiro alto, atento, sorridente, que, com uma elegância leve fingia não se envaidecer com as preciosidades escondidas nos seus gavetões, uma das maiores coleções privadas mundiais de manuscritos?

Vertigem era dizer pouco de poder manusear fisicamente, dez séculos de História (o primeiro documento, de natureza papal, remonta a 1140) através do espólio raro de escritos, cartas, documentos, apontamentos, desenhos. Testemunhos políticos, religiosos, culturais, científicos, artísticos – da história da nossa civilização e também desse continente que é o Brasil, e que se abrigavam, uma e outro, na morada quase banal de um cidadão privado brasileiro.

Era, era para mim que ele falava. Mas que longe eu estava agora daquela ocasião em que pela primeira vez ouvira falar do homem alto (há vinte anos? Trinta anos?) no Rio de Janeiro, descobrindo-o nas páginas de um livro, e logo ali mesmo decidira que um dia, fosse qual fosse e quando fosse, eu haveria de o conhecer. Antecipando, intuindo, adivinhando o poder e o sobressalto desse encontro.

Dizer vertigem foi pouco.

2. Pedro Corrêa do Lago é indefinível. Não tem idade mesmo que eu informe que tem 58 anos. É maior que o seu currículo mesmo que eu aqui o decline ou esclareça que interpreta a cultura como um modo de vida – na história da arte, na autoria de várias obras, na museologia, na coleção de livros raros, na edição, na curadoria; é mais interessante que os seus cargos e ofícios mesmo que eu sublinhe que presidiu à Fundação da Biblioteca Nacional do Brasil; que foi livreiro-antiquário com livraria em nome próprio; que encena exposições nos melhores museus da Europa; que representou a Sotheby’s em S. Paulo, durante vinte anos.

Ou mesmo que ainda refira que este cidadão brasileiro é um dotado poliglota que pensa e oficia usando da claridade grave do seu francês, da fluidez poética do verbo italiano, da secura veloz do inglês ou do seu português musical.

Não é que estas características e talentos sejam indiferentes ou sequer modestos, longe disso, mas não bastam para o explicar, falta o resto. Há o resto. Uma “diferença”, de novo não totalmente traduzível em linguagem nossa conhecida: chamá-lo de criativo, curioso, intuitivo, paciente, persistente; dizer que tem gosto e talento e teve sorte, é talvez ainda não captar o seu golpe de asa. Foi com isso – ninguém me disse mas tenho a certeza – que ele se fez. E que depois, foi andando.

3. Dizem que o berço ajuda. Porventura. Nasceu numa das melhores famílias brasileiras, é filho e irmão de diplomatas, neto de um grande e prestigiadíssimo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Osvaldo Aranha. Herdou o que de melhor tem um bom berço: a educação, a cultura, o culto do trabalho, as boas maneiras.

Era uma vez… (e uma história começa sempre da mesma maneira), um pai, embaixador, que recebia em casa o “Who’ s who”, a edição inglesa anual publicada desde 1849, que inclui gente relevante de todos os setores e lugares.

Pedro lembra-se de si com doze, treze anos a desfiar as páginas desses “almanaques” envelhecidos, extasiado com as fotos e curioso sobre as breves notas biográficas (pedidas pela editora na alínea que dizia “present position”) da gente que o mundo considerava “alguém”. A resposta de De Gaulle, por exemplo, mandada de Londres em 1942, escrevia-se numa linha: “líder da França livre”.

O miúdo quis saber mais: no regresso das aulas na escola francesa – na Bélgica, onde à época seu pai estava em posto – decidiu escrever a esses tão diversos “alguéns”, dizendo-lhes ao que vinha: “tenho doze anos, sou o Pedro Corrêa do Lago e quero um autógrafo seu. Conheço-o do Who’s who”. Muitos deles responderam – na altura havia mais tempo para o tempo. Os pais “achavam graça”, os irmãos ironizavam. Mas na volta do correio, o adolescente curioso ia guardando religiosamente os postais ou bilhetes que acompanhavam os autógrafos onde por vezes constava também a surpresa pela iniciativa do adolescente.

Sem surpresa, porém, nascia uma coleção.

Poucos anos depois, apurando o gosto (“meu gosto veio da minha curiosidade, eu possuía uma genética predisposta para isto…”) mergulha no mundos dos livreiros e dos mercados e também se apura a lidar com uns e outros. Estudou no estrangeiro, frequentou a universidade já no Brasil, é Mestre em Economia, mas a verdade é que começara, “ainda garoto”, a estagiar num banco: “eu tinha o gosto dos papeis mas não o dinheiro, então fui à procura dele…”

Foi o princípio de uma vida com cheiro a papel. E o primeiro sinal do golpe da asa.

4. Comecei por me espantar com o espaço: a área onde Pedro Corrêa do Lago abria gavetas de onde ia tirando pastas revestidas de um plástico espesso não era particularmente desafogada, nem a divisão, muito grande mas… quantos séculos e quanta vida naquelas gavetas de aço, vindas de uma fábrica europeia e construídas “à prova de tudo” – bombas, invejas, cataclismos – para garantir a paz definitiva ao bocado da eternidade que se arrumava lá dentro.

“Já viu a História que está aqui, impressa nos documentos destes Papas, Reis, Imperadores? Quantas lágrimas de alegria, condolências, sofrimento; quanta tensão nestas declarações de guerra, nomeações, demissões, quanta raiva nessas traições, desesperos; quantos amores e desamores nessas cartas? Tanta emoção e palpitação…”

Tanto papel. Passar-se-ia ali uma vida.

“Você está habituada a ver mil e mil rostos, não é? Conhece-os a todos , sem esforço, eu conheço mil e mil caligrafias diferentes…”

5. Mas, e agora? Falar da carta de Mozart a Constança? Ou de Chopin, Mahler, Puccini, Wagner, Verdi, Ravel, Stravinsky?

Da carta de Henrique VIII a Luís XII da França? Da História feita por Catarina a Grande, Pedro o Grande, Maria Stuart, Carlos V, Luís XIII, Luís XV, Luís XVI, Henrique VIII, Maria Teresa da Áustria, Lucrécia Borgia, Afonso VII ,Ludwig da Baviera, Rasputine, Estaline, Lenine, Trosky, Maria Antonieta , Richelieu, Fernando II, Napoleão, Rainha Vitória, Lord Nelson, Duque de Windsor, Churchill, De Gaulle? Kennedy?

Das “belles lettres” da Comtesse du Bary? Ou antes de Baudelaire, Borges, Beckett, Byron, Burroughs? Ou de Dostoievsky, Hugo, Lorca, Joyce, Lampedusa, Camus, Flaubert, Goethe, Nabokov, Oscar Wilde? Sartre, Saint Exupery, Eça, Hemingway? Talvez de Shelley, ou de Yeats ou de Pessoa…

“Já viu estes rascunhos de poemas, com suas hesitações, dúvidas, as palavras cortadas, as emendas…Esse mistério que é a inspiração mas já está aqui, nesses primeiros esboços de obras primas, como a maior de todas do século XX que foi “A La Recherche du Temps Perdu”, do Proust, olha só…”

Olhei. Olhei com um deleite quase incrédulo a caligrafia de Proust, num longo rascunho, rasurado, legível, autêntico.

E depois “vi” Rubens, Matisse, Picasso, Renoir, ah e tantos outros diante de quem sonhamos nos museus ou nos maravilhamos com a suas linhas inspiradas como as de Courbusier ou Frank Lloyd Wright, também eles ali, forrados a aço. E “vi” Chaplin, Walt Disney, Hitchcock, Fellini, Garbo, Mae West, Orson Welles. Apesar de em papel apercebi-me do glamour de Jacqueline Kennedy e da sedução de Casanova ou Rudolfo Valentino; do gesto de Isadora Duncan, do jazz de Louis Amstrong, do som dos Beatles, da batida dos Rolling Stones.

E finalmente, disse “Amen” a mim mesma com S. Francisco de Salles e S. Vicente de Paulo. Que me lembre, mas talvez houvesse mais santos.

6. Portugal? Havia Portugal, claro. D. João VI, obviamente, com alguma documentação dessa que “mudou a história do Brasil” como lembra Corrêa do Lago, aludindo às cartas de D. Pedro I a D.P edro II, por exemplo. Mas existiam outros papéis de outras dinastias e reis (D. Dinis, João I, D. Duarte, uma pasta dedicada a D. Manuel, uma carta de D. Sebastião a Felipe II. D.João V). Mas também Pessoa, Almada, Garret, Antero, Júlio Dinis, Cesário, Camilo, Eça, Teixeira de Pascoaes, Dantas, Castilho, Conde Ficalho. E desenhos de Columbano ou Sousa Pinto…

7. Peixe, legumes grelhados e verduras cruas para o almoço, (não houve vinho, fez-me falta, tratava-se de “drenar” a emoção à solta). Saboreámos tudo isso por entre uma sedutora desordem de caixas, papeis, filas de telas e quadros encostados às paredes porque “não houve ainda tempo nem sítio para os arrumar”; livros, em mesas, cadeiras, sofás; objetos de arte e mais livros, em pilhas, pelo chão.

Pedro Corrêa do Lago é proprietário, com sua mulher, Beatriz Fonseca (filha do escritor Ruben Fonseca) da “Capivara”, nome de pássaro mas titulo da certamente mais requintada, mais exigente, mais bela editora de livros de arte do Brasil, alguns escritos pelo próprio Pedro, sobre altas figuras da arte e da pintura relacionadas com o presente e o passado do Brasil.

Voltando ao presente do nosso almoço, Pedro Corrêa do Lago conta-me agora organizou o seu espólio em redor de seis sólidas colecções – História, Arte, Ciência, Música, Literatura, Entretenimento (cinema, teatro, moda) e diz-me julgar que “em relação a certos ‘cânones’ geralmente aceites, é suposto faltarem-lhe pouca coisas’ para atingir o que define uma razoável coleção de documentos.”

A conversa flui, falamos disto e daquilo, do mau momento do Brasil, que “ o preocupa”; das muitas viagens que faz em busca de tesouros ou para aconselhar aquisições a terceiros; de Lisboa onde gosta de vir, de amigos comuns.

De súbito, uma mosca assassina sobrevoa obsessivamente a mesa, parando por vezes ameaçadoramente sobre o peixe dos nossos pratos. O meu interlocutor impacienta-se, chama o empregado, “nunca se viu mosca aqui…”. O insecto não desarma, passam minutos, a conversa desfalece. A irritação sobe de grau. Suspenso daquele voo rasante e do seu zumbido, Pedro Corrêa do Lago quase explode e eis que uma das pastas do arquivo que ele trouxera para a mesa, desaba com fúria sobre a mosca: “ já tinha visto alguém matar moscas com Van Gogh? Não se aflija não, esse plástico é duríssimo…”

8. Deixei aqui nomes a eito e avulso, de épocas demasiado misturadas mas dificilmente haveria outra maneira. A vertigem de um abrir e fechar de gavetas e a sôfrega curiosidade de uma “deambulação” ao acaso por pastas e maços de papel, impediam qualquer outro “método” para visita de assombro tão memorável. (A minha visita, inesquecível e nunca “retribuível”, foi uma cortesia pessoal, de modo nenhum se revestindo de carácter profissional, o que explica que não me tivesse permitido tomar notas sobre documento algum e ainda menos transcrevê-los para aqui).

Também me vetei a escolha (tão inútil quanto de resto impossível) de eleger alguém, algum “momento”, algum “papel”. O galope sempre fértil do tempo sobre as coisas e o andar da História, com suas surpresas sobressaltadas, seus avanços e recuos, roubaria qualquer sentido ao exercício. O que interessa é que, embora em divertidíssimos níveis de interesse ou de relevância histórica, observei grandes atos criadores impressos em papel; alguns registos de cruciais momentos da carta da humanidade; correspondência fundamental entre gente fundamental; sinais de génio; rascunhos de grandes hinos de amor; desenhos incertos e ansiosos tracejados de lápis; fait divers, pequenas anedotas, breves apontamentos, fotos, croquis…Tudo enfim o que cerziu, ao longo de séculos, uma tapeçaria a que vulgarmente chamamos civilização.

9. Se o Brasil é um país espantosamente criativo, as elites brasileiras podem ser absolutamente formidáveis. Cultas, fortes, inteligentes, vencedoras, capazes de estar (como estão) no topo de muita coisa, em muitos lugares deste vasto mundo. Basta pensar na excelência do seu setor financeiro; na boa tradição da sua banca privada, na sólida indústria brasileira de fundos de investimentos; no setor da agricultura, (são a segunda potência agrícola mundial a seguir aos Estados Unidos), com alta tecnologia, e qualificado “know-how”; no setor da engenharia, da medicina…

Não foi por acaso que após o deplorável espetáculo político do “impeachement” televisionado de uma “presidenta”, eu deixei aqui a invulgaríssima assinatura de um brasileiro excecional, Pedro Corrêa do Lago.

Ele não precisa mas merece. E o Brasil merece (me) isso e muito mais.

 

PUBLICAÇÃO > OBSERVADOR

 

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