O turismo ganhou novos operadores, sem rosto, e são eles quem dita as regras do jogo. “Os Donos Disto Tudo”, diz o antigo secretário de Estado do turismo, Vítor Neto, são agora o Google, o Booking, o Trip Advisor e outras plataformas globais. “Não é uma coisa que há-de vir. Já está cá”, advertiu nesta sexta-feira, durante mais uma iniciativa do ciclo de Conferências Caixa 2020, organizado pelo PÚBLICO em parceria com a Caixa Geral de Depósitos e destinada a debater o “novo fôlego” nos investimentos e os desafios que se colocam ao sector turístico.

Vítor Neto adiantou que, no número de turistas a nível mundial, prevê-se um salto dos 1100 milhões em 2013 para os 1400 milhões em 2020. No mercado português, o aumento de 6,5% no número de dormidas de 2014 para 2015 – 49 milhões segundo o INE – leva Vítor Neto a encarar o futuro do sector com optimismo, deixando, no entanto, um aviso: “É necessário não confundir turismo com imobiliário”. Por seu lado, Rogério Gomes, o presidente do Instituto do Território (organização não governamental), destacou a importância da Internet (geo-espacial) enquanto ferramenta da economia partilhada. Na Alemanha, exemplificou, 30% da energia já é produzida e partilhada por particulares. “A Internet facilita e condiciona as nossas opções”, sublinhou. O que importa saber, perguntou o moderador do debate, Manuel Carvalho, jornalista do PÚBLICO, é “o que faz mexer esta máquina”, que vai fechar o ano de 2015 com um crescimento de mil milhões de euros nas receitas e um peso de 47% nas exportações?

Turismo já vale metade das exportações de serviços

Vítor Neto, que agora é presidente da Associação Empresarial do Algarve, apoiado pelos dados da Organização Mundial de Turismo, lembrou que quase 90% dos turistas internacionais na Europa provêm da própria Europa. No diz respeito à China, apesar de ser o maior mercado emissor do mundo (100 milhões de turistas), representa pouco mais de um por cento dos turistas que a Europa recebe. No segundo painel da conferência, o empresário José Carlos Leandro, alertou: “O Algarve depende em mais de 50% da vontade de um único operador [Tui]”. Mas só representa 3% [do volume de negócios desse operador]. Por isso, defendeu a necessidade dos agentes dos hoteleiros diversificaram a oferta, potenciando o uso da Internet. A Caixa Geral de Depósitos, adiantou Francisco Santos Silva, dispõe de 25 mil milhões de euros para apoiar as empresas, seguindo “muito a lógica da qualificação” do produto. Por seu turno, Vitor Neto lembrou que os programas de requalificação urbana que estão a ser levados a cabo em Lisboa e no Porto, inseridos em programas de Alojamento Local, não devem ser confundidos com a requalificação da oferta turística. “Só em Lisboa há 200 apartamentos geridos por uma entidade – isto é rentabilização imobiliária”, enfatizou.

O Algarve é uma das regiões que mais evidencia a dependência entre turismo e imobiliário, colocada numa em situação periclitante com a crise de 2007/2008. Por conseguinte, o representante da Sociedade Capital de Risco ECS, Gonçalo Batalha, lembrou que o modelo está a ser reconfigurado. “Esse mercado colapsou”, disse. O Resort dos Salgados (Albufeira), pertencente ao antigo grupo Carlos Saraiva, é um dos exemplos.

No painel onde se discutiu a política de investimentos, José Carlos Leandro, proprietário do Hotel Alísios (Albufeira) alertou para a degradação do espaço urbano, à saída dos hotéis. “Basta dar uma volta pelo Algarve para se encontrar situações impróprias para receber turistas”. As câmaras do Algarve, criticou Vitor Neto, “ funcionam como se fossem 16 repúblicas autónomas”. Do ponto de vista político, enfatizou, por não existir um órgão regional com poder executivo, “o Algarve vale zero”. Por fim, José Carlos Leandro quis deixar claro que estava contra a nova tendência do “tudo incluído” na hotelaria. “Nas Caraíbas, onde nasceu, pode fazer sentido, aqui seca tudo à volta”. Gonçalo Batalha discordou: “Temos de nos adaptar, e acompanhar as tendências”, observou.

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