O português é actualmente um património comum a mais de 250 milhões de falantes nativos, distribuídos sobretudo pelas costas atlânticas da Europa, África e América do Sul (World Bank 2006).

Colocando este dado numa perspectiva histórica, é notório que, de entre as dez línguas mais faladas no mundo, seis foram difundidas com a expansão de impérios europeus nos últimos 5 séculos: o inglês, o castelhano, o português, o russo, o alemão e o francês (Austin 2008). O caso do português é paradigmático. Seguindo as rotas da expansão ibérica, missionários Jesuítas, Dominicanos, Franciscanos e Carmelitas produzirem centenas de trabalhos linguísticos sobre as línguas indígenas de África, Brasil, Índia, China e Japão. Este importante corpus inclui gramáticas e/ou dicionários de tâmul e malaiala (línguas dravídicas); concani, marata e bengala (indo-áricas); japonês; kipea-kiriri (macro-jê); tupinambá e a língua geral amazónica (tupi-guarani); quimbundu e sena (bantu), entre outras (Zwartjes 2011).

As artes das línguas e dicionários, escritos em português e, em grande medida, ignorados, merecem um estudo maia aprofundado. Este corpus documental demonstra que o português, a par do castelhano, tornou-se o principal idioma e espaço semântico através do qual as línguas e sistemas civilizacionais ameríndios, africanos e asiáticos que não se incluíam no oikoumene greco-romano foram pela primeira vez descritos, traduzidos e transmitidos em línguas europeias.
Os termos e conceitos traduzidos através do português (e castelhano) no quadro da expansão ibérica e das missões jesuítas e dominicanas produziram um primeiro mapa cultural abrangente das línguas, filosofias e religiões ameríndias, africanas e asiáticas, contribuindo para a emergência de uma cartografia cultural global.

Superando e contextualizando qualquer discurso apologético a favor dos impérios, do proselitismo católico e do domínio colonial, a compreensão histórica das formas de contacto linguístico estabelecidas entre vários povos do mundo, através da análise histórica da difusão e usos da língua portuguesa enquanto língua franca e língua veicular, promoverão o conhecimento mútuo entre várias comunidades linguísticas a uma escala global. Esta análise contribuirá para ultrapassar o pesado património do colonialismo precisamente por abordar passados conflituosos e oferecer uma nova perspectiva da língua enquanto instrumento de criação e transformação da realidade.

Impacto esperado/resultados a alcançar

Este projecto chama a atenção para um capítulo em larga medida esquecido da História cultural da primeira idade moderna. Enformado pelas interrogações de diferentes práticas disciplinares e apoiado e sustentado pela pesquisa e o estudo de 17 línguas pouco conhecidas, espera-se que as sinergias criadas levem a uma redefinição do entendimento do usos e funções da língua portuguesa por via das conexões criadas em diferentes macro-regiões.

O trabalho que nos propomos desenvolver levará não apenas a uma nova interpretação do corpus de saber existente neste domínio, mas servirá sobretudo para um novo entendimento e reconfiguração da história da língua portuguesa através de novos dados que surgirão de um estudo que cruzará disciplinas, regiões e países. Do estudo comparativo de diversas línguas que pela primeira vez foram traduzidas para uma língua europeia através da língua portuguesa, irão emergir informações até aqui desconhecidas ou ignoradas que permitirão percepcionar modos e filtros de transmissão(ões), disseminação(ões) e apropriação(ões). Esta investigação e teorização inovadoras terão aplicações no futuro a nível disciplinar e metodológico em diferentes disciplinas. A interacção e cooperação entre Universidades, Unidades de Investigação, a Academia das Ciências de Lisboa e o Museu da Língua de São Paulo são garantes do alcance de um impacto social relevante que ultrapassará as fronteiras do mundo académico.

* Imagem: Dicionário Português-Chinês, final do séc. XVI. Roma, Archivum Historicum Societatis Iesu (ARSI), Jap. Sin. I, 198 (ed. moderna John Witek S.J. Lisboa: Biblioteca Nacional de Portugal ,2001)

Objectivos

 O projecto exploratório O espaço das línguas pretende investigar quatro tópicos interligados:

1) Os usos do português como língua franca nas bacias dos Oceanos Atlântico e Índico e no Mar da China, salientando:

– As línguas associadas ao império;

– O sistema de intérpretes (África, Índia, Brasil, China, Japão, Cochinchina, etc.);

– As transferências linguísticas entre o português e as línguas da América do Sul, África e Ásia.

2) O uso da língua portuguesa como um dos principais idiomas e espaços semânticos para a tradução e inclusão de línguas ameríndias, africanas e asiáticas, bem como dos respectivos sistemas civilizacionais, em qualquer língua europeia. Analisaremos:

– O corpus de dicionários e gramáticas que traduziram e “codificaram” línguas ameríndias, africanas e asiáticas;

– O modo como a língua portuguesa mediou e transmitiu conceitos e palavras de línguas ameríndias, africanas e asiáticas para outras línguas europeias;

– O contributo da linguística missionária do início do período moderno para o estudo da tipologia das línguas e para a emergência da linguística.

3) A individuação e análise das línguas crioulas de base lexical portuguesa, incluindo o estudo dos contextos sociais de formação e difusão de línguas pidgin e crioulas e o seu impacto em subsequentes lingue franche.

4) O conceito de “espaço linguístico” e “espacialidade das línguas” desde a Antiguidade até ao início do período moderno.

Para discutir estes tópicos, foi reunida uma equipa interdisciplinar e internacional de investigadores que abarca a história da língua portuguesa, a linguística, a filologia portuguesa e história do livro, a história da expansão e do império português, bem como a história das missões no início do período moderno e a linguística missionária. Esta equipa internacional gerará sinergias que permitirão alargar de modo inovador o estudo da presença e do próprio conceito de “língua portuguesa” no início do período moderno, a uma escala global.

Por fim, este Projecto será crucial para gerar um consórcio internacional de pesquisa envolvendo investigadores seniores e juniores de Portugal, Europa, África, Brasil e Ásia, focado na história, espaço e usos do português desde o início do período moderno. A parceria com a Academia das Ciências de Lisboa, o Museu da Língua de São Paulo e o recém-criado Museu da Língua de Bragança, por outro lado, permitirá “exportar” o projecto para outras academias e museus a nível global.

 

Investigador Principal: Angelo Cattaneo (CHAM)

Instituições

Instituição Coordenadora

– FCSH / NOVA

Apoios

– FCG
– FCT

Parcerias

– CHAM
– CLUNL / NOVA
– CLUL / UL
– ILLLP
– Museu da Língua Portuguesa
PUBLICAÇÃO > CHAM FCSH
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