Nos últimos 25 anos, um conjunto de acontecimentos acumulados alterou drasticamente a posição da economia mundial que fala português, dando-lhe um potencial que deve ser aproveitado.
Este aproveitamento poderá ser feito através da ponderação estratégica de uma visão das dinâmicas globais que poderão ser dominantes nos próximos 50 anos, da cooperação madura e interessada entre todos os países que falam português e da consequente ação articulada, determinada e pragmática.

O Bloco Económico Lusófono Hoje

O conjunto de acontecimentos aludidos em cima são principalmente os seguintes: a entrada de Portugal na União Europeia nos anos 80 (então CEE) e a especialização económica em curso; a confirmação do Brasil como potência económica mundial, desde os anos 90; a estabilidade enquanto Nação e o início de uma era de elevado crescimento económico de Angola, Cabo Verde e Moçambique no final da primeira década deste século; a independência de Timor-Leste no início deste século, que permitirá o desenvolvimento e alguma relevância económica daqui a uma década; o processo exemplar de integração de Macau na China. Dentro de alguns anos, esperemos que não muitos, países de menor potencial, como São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau, poderão compor marginalmente este lote. Acresce a este lote uma diáspora crescente de falantes de português em cargos de gestão de grandes empresas internacionais e em organismos multilaterais, ao invés da diáspora até aos anos 90.

Hoje em dia, 4,6% da economia mundial fala português, sendo estimado que cresça a taxas superiores à da economia mundial nos próximos 10 anos. O português é a língua mais falada do hemisfério sul, o hemisfério do crescimento económico, demográfico e político nos próximos anos (excluindo a China e a Índia). Há países que falam português em quase todos os blocos económicos e continentes. O português é a terceira língua internacional mais falada no Facebook.

O Mundo em Mudança Abre Oportunidades para o Bloco Económico Lusófono

Nos últimos 200 anos, temos assistido ao ascendente do bloco anglo-saxónico, devido a um vasto conjunto de acontecimentos históricos. No entanto, nos últimos 25 anos, o mundo tornou-se mais multipolar, abrindo espaço para a afirmação de outras culturas e de outros blocos económicos. Por exemplo, apesar do inglês se ter tornado numa espécie de língua franca mundial, a emergência da China e das economias emergentes está a reequilibrar o forte peso cultural anglo-saxónico. Se, por um lado, a língua inglesa serviu para homogeneizar linguisticamente o mundo, por outro lado, a própria língua inglesa serve de alavanca para a maior transferência e afirmação de outras culturas e dos seus valores. A evolução económica e o peso mundial dos países muçulmanos suportados pelo petróleo é ainda uma incógnita.

Também nos últimos 25 anos, a forte evolução das tecnologias de informação e comunicação e a emergência da internet têm alterado as regras económicas através do fenómeno da globalização, tendo criado muito maior fluidez e incerteza na economia, tornando a competitividade económica mais aberta, menos protegida e mais democrática.

A crise económico-financeira em Portugal vai servir para reforçar o potencial de um bloco económico lusófono ao tornar os portugueses mais interessados, pela necessidade, nos outros países lusófonos, ao abrir ainda mais a sua economia ao mundo e ao alargar a sua diáspora, etc.

o Potenciar o Bloco Económico Lusófono?

Há que refletir e ponderar bem sobre o interesse de cada país, e de todos na globalidade, no reforço de uma estratégia de bloco económico e sobre quais os caminhos a partilhar. Apresentam-se a seguir algumas ideias iniciais e que precisam de ser amadurecidas, estudadas e complementadas por uma reflexão mais profunda e pelos agentes económicos e políticos com poder de realizar e implementar.

Como resultado de uma reflexão curta e imediatista, para um simples artigo, apontamos algumas ideias que nos parecem importantes para se projetar um bloco económico lusófono com interesse para cada um dos países que o constituem.

  • Visão Futurista

A reflexão não deve olhar para o presente e para os próximos 3 anos, mas sim para dinâmicas e tendências que irão moldar o mundo nos próximos 50 anos. Envolve pensamento largo, de cenarização, de tendências, e de criação de novas dinâmicas dentro (e fora) do campo de intervenção das possibilidades visíveis.

  • Visão Centrífuga

Não interessa a este bloco económico fechar-se sobre si mesmo. Pelo contrário, interessa é saber como é que o todo, um bloco lusófono, pode alavancar cada país a ter maior sucesso num mundo integrado economicamente e global. Não interessa ao Brasil reduzir as suas prioridades ao mundo lusófono. Nem interessa a Portugal. Nem interessa a Angola, Cabo Verde ou Moçambique restringir as suas prioridades aos inputs do Brasil e de Portugal. Interessa a todos a economia global, mas usando a alavanca lusófona para ir mais longe individualmente.

  • Qualificação do Capital Humano

Nos próximos 50 anos, a qualidade do capital humano de cada país e de cada bloco cultural e linguístico vai ser determinante para a sua competitividade e desenvolvimento económico-social. Para além do ensino tradicional, o potencial da internet como plataforma de conhecimento e de ensino massificado e especializado vai mudar os paradigmas da aprendizagem e do acesso ao conhecimento nos próximos 25 anos. Vai ser uma grande revolução mundial. Num mundo cada vez mais integrado, vai ser uma corrida competitiva enorme entre todos. Portugal pode apoiar especialmente Angola, Cabo Verde, Moçambique e Timor a darem um salto quântico e muito acelerado no desenvolvimento do seu capital humano, no ensino tradicional e nos novos modelos de acesso pela internet, ganhando todos economicamente com isso. O Brasil, pela sua vastidão, tem de fazer essencialmente uma corrida interna, que beneficiará todo o bloco, mas, pela grande dimensão da sua população, será determinante para cocriar, coparticipar e viabilizar modelos de conhecimento baseados na internet para todo o mundo lusófono.

  • Tecnologias e TIC

As tecnologias de informação e comunicação (TIC) introduziram uma lógica de economia exponencial no mundo digital que terá um peso crescente na economia mundial. Conseguir efeitos de rede (mundial) terá um impacto determinante no futuro de muitos negócios. Ou o mundo lusófono consegue criar efeitos de rede sustentáveis no mundo digital ou toda esta economia será capturada pelas economias anglo-saxónicas e outras, excluindo todos e cada um dos países lusófonos do fillet mignon da economia digital. Mas, para além das TIC, as novas tecnologias em geral, nomeadamente nas energias limpas e renováveis, na biotecnologia e na medicina, bem como em setores de crescente relevância, como o aeronáutico e aeroespacial, terão um peso mais elevado na economia global do futuro.

  • Ciência e Língua

A ciência que suporta estes desenvolvimentos tecnológicos e a aplicação prática de inovações na economia produtiva deverão ter um peso maior nos orçamentos e no desempenho dos países lusófonos. É aqui que um trabalho transversal entre todos os países pode ser da maior mais-valia no presente e nos próximos 50 anos. A harmonização linguística que permite a interação com o menor atrito possível é uma evidência de la palisse.

  • Trocas Comerciais e Livre Circulação 

O bloco lusófono e cada um dos seus países individualmente conseguem ganhar maior fulgor económico se tiverem maior liberdade e menos atrito nas trocas comerciais e na livre circulação de bens, serviços e pessoas, entre si. Acordos preferenciais são necessários nesta área. Bem como a sua boa implementação.

  • Novo Modelo Cultural e Político

Este bloco tem de olhar para os próximos 50 anos com uma mente aberta, criativa e livre de constrangimentos. O etnocentrismo cultural europeu, de que Portugal ainda padece (sem saber até), a crescente autossuficiência brasileira em termos lusófonos, algum revanchismo anticolonial dos novos países africanos, são todos elementos para serem controlados cuidadosamente por forma a permitirem uma visão criativa do futuro a 50 anos. Mas mais do que homogeneizar perspetivas, deve-se valorizar e potenciar a diferença criativa.

  • Organismos Internacionais e a CPLP

A consciência de um bloco económico lusófono deve dar lugar a uma atuação conjunta em organismos internacionais, em termos de realpolitik económica, de mútuo apoio para exercício de cargos de liderança em todo o tipo de organismos mundiais e multilaterais (nomeadamente, apoio ao Brasil para membro permanente do Conselho de Segurança). Qual o papel do atual organismo da CPLP no desenvolvimento deste bloco económico é algo que não é analisado neste artigo.

 

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