O tema “Novos caminhos da literatura angolana” foi motivo de debate no passado dia 28 de Setembro, no âmbito da tradicional “Maka à quarta-feira” da União dos Escritores Angolanos, em sessão realizada na sala D. Pedro V da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em sessão  que juntou académicos angolanos e portugueses.

Na sessão de abertura do debate, Carmo Neto, Secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, fez lembrar aos presentes o seguinte: “A Maka à quarta-feira” é um acontecimento regular de debate que tem como objectivo estimular a discussão de ideias que contribuam para o crescimento e valorização das artes, em particular, e dos bens supremos da humanidade, em geral. Neste sentido, queremos progredir editando obras que perpetuem o papel da União dos Escritores Angolanos na sociedade angolana, editar uma compilação de textos sobre a História da Literatura Angolana, honrando, deste modo, a memória dos seus fundadores, materializando os sonhos dos intelectuais oitocentistas e da primeira metade do século XX da literatura angolana. Para que tal aconteça será necessário melhorarmos o acervo bibliográfico da biblioteca da nossa instituição, com a aquisição de novos títulos relacionados com os estudos da língua portuguesa e da escrita criativa, negociarmos com entidades, parceiras nacionais ou estrangeiras, visando o patrocínio de Bolsas de Criação para escritores ou potenciais novos autores e continuarmos a organizar acções de formação de curta duração no domínio da  língua portuguesa”.
O ciclo de debates genericamente designados “Maka à quarta-feira”, foi criado depois do célebre discurso pronunciado pelo Primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, por ocasião da tomada de posse dos corpos gerentes da União dos Escritores Angolanos no dia 8 de Janeiro de 1979. Centrado no debate à volta de questões ligadas à criação e à história da literatura angolana, o seus temas evoluiram, sob gestão de Carmo Ndeto, para questões de interesse sociale económico. O debate do passado dia 28 de Setembro, que juntou académicos portugueses e angolanosna sala D. Pedro V da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi o primeiro realizado fora de Angola.

Oradores

Helena Buescu, professora catedrática de Literatura Comparada da Universidade de Lisboa, tem os seus principais interesses de investigação voltados para os séculos XIX e XX, bem como em questões teóricas da literatura comparada e da literatura-mundo. Colabora regularmente com Universidades estrangeiras como professora visitante e investigadora, e defendeu na “Maka à quarta-feira”, a criação de um Plano alargado de tradução e uma maior circulação da literatura entre os países da CPLP.
António Quino, licenciado em Ciências da Educação e Mestre em Ensino de Literaturas em Língua Portuguesa, jornalista desde 1990, e co-fundador do Jornal Farol, da Brigada Jovem de Literatura do Namibe, resumiu nos  seguintes termos a sua intervenção: “Centrei a minha intervenção na valorização, em primeira instância, do leitor angolano diante do autor “ancorado” em Angola, produzindo a partir de Angola os seus textos, procurando “desconstruir” a ideia da univocidade dos autores angolanos, na sua relação com o mercado português, que  privilegia os autores angolanos “residentes” na diáspora. Por outro lado, procurei apresentar exemplos de como a tematização da história da literatura angolana sempre procurou enquadrar-se no seu próprio contexto, contribuindo assim, a seu modo, para o desenvolvimento da sociedade e para o crescimento e valorização do sujeito “angolense”. Concluí que quase todos os escritores da contemporaneidade, vanguardistas ou conservadores de um realismo muito comprometido com as questões existenciais e sociais das esperanças e deseperanças do período pós-independência, assumem a tendência de revolução mais no campo temático e à vida da sociedade rural e suburbana, na inovação do modelo de vida urbana, sendo que o inverso também é verdadeiro”.
Por sua vez José Luís Mendonça, poeta, jornalista, membro da União dos Escritores Angolanos, professor de língua portuguesa na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho e Director do Jornal Cultura das Edições Novembro, apresentou o tema, “O livro como canal dialógicoentre as gerações de escritores, o caso de Manuel Rui e Ondjaki”, tendo feito do seguinte modo a síntese da sua comunicação: “Nos dias de hoje, o narrador angolano fala a partir da língua veicular, mas reproduzindo, de uma maneira ou de outra, o discurso oral das ruas e ruralidades. Manuel Rui e Ondjaki mantêm-se fiéis ao lema dos Novos Intelectuais de Angola, de passar para o papel o ritmo-emoção do homem africano. O mérito desta nova alma da literatura angolana está na inovação formal e, sobretudo, na perspectiva ou no ponto de vista popular dos personagens humildes e marginais que são, afinal, os que fazem a Angola de hoje, o que lhe valeu o prémio José Saramago. No actual contexto histórico-cultural e social da Nação Angolana, a literatura apresenta-se ao mundo como uma espécie de embaixadora da angolanidade, ela vai mostrar aos leitores do mundo, através da língua portuguesa, a história de Angola e dos angolanos. Ao contrário dos escritores na diáspora, o dilema dos escritores ancorados na pátria são: a escassez de tempo para escrever e o problema da edição em Portugal ou no Brasil, para serem conhecidos do Mundo”.

Histórico

No âmbito da cooperação entre a União dos Escritores Angolanos e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa foi lançada no dia 15 de Junho de 2015, a décima nona edição da “Revista textos e pretextos”, número especial inteiramente dedicado a Angola, no Jardim D. Pedro V da mesma Faculdade, num acto que reuniu escritores angolanos e académicos  portugueses. “Angola, poesia e prosa” foi o tema geral da publicação, organizada pelo Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com o apoio integral da União dos Escritores Angolanos. Do conteúdo da revista, o destaque foi para a resposta a três questões colocadas a vinte e seis escritores angolanos de gerações diversas, relativamente à identidade na literatura angolana, a forma como os escritores usam a história para pensar e escrever a literatura do presente, e, quais os traços identificadores de uma literatura no feminino. A revista “Textos e pretextos” surgiu no âmbito das comemorações dos quarenta anos da Independência de Angola, e, concomitantemente, da proclamação da União dos Escritores Angolanos. A referida revista revestiu-se de extrema importância para o meio universitário português, e propiciou ainda mais a proximação com a literatura angolana. A edição inclui reflexões ensaísticas e testemunhos inéditos de cerca de vinte e cinco escritores sobre a identidade da literatura angolana, abrindo-se novos caminhos à investigação da literatura angolana, das últimas quatro décadas.

Depoimento

Vanessa Riambau Pinheiro, professora da Universidade Federal da Paraíba, Brasil, e pós-orientanda na Faculdade de Letras de Lisboa, esteve presente na “Maka à quarta-feira”, e fez o seguinte depoimento: Para mim, que sou professora da Universidade Federal da Paraíba no Brasil e pós-doutoranda em Estudos Africanos na FLUL, foi especialmente enriquecedor o diálogo. Chamou-me atenção especialmente a fala de José Luís Mendonça, ratificada pelo secretário Carmo Neto, sobre a influência do mercado editorial português e brasileiro, nomeadamente Lisboa e São Paulo, na difusão dos autores angolanos, não só na Europa e Brasil, como também em Angola. Pareceu-me, guardadas as devidas proporções, uma roupagem nova, ainda que “démodé, da velha mentalidade colonial, que considera legítimo que outra nação, que não a própria africana de cujos autores são oriundos, estabeleça seus cânones literários. Este pensamento vem ao encontro do que tenho pesquisado sobre a formação do cânone pós-descolonização. Acredito ser necessária uma investigação mais ampla deste espectro, para que os estudos africanos possam ter maior validade e legitimação junto aos respectivos países aos quais se referem”.

Centro

Conforme podemos ler no seu catálogo de apresentação, o Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de letras da Universidade Nova de Lisboa, que celebrou um acordo de cooperação com a União dos Escritores Angolanos, foi fundado em 1998, e dedica-se à análise comparada das literaturas, artes e culturas, recorrendo a abordagens multidisciplinares e interculturais. As suas linhas de investigação contemplam a literatura comparada, a literatura-mundo, os estudos pós-coloniais, intermediais, de tradução, de memória, entre outros, não descurando as abordagens filológicas. Questões de interculturalidade, de tradução textual e cultural são tendências transversais em muitos dos seus projectos. A ênfase em questões espaciais na sua articulação com temas de memória e história, e os processos narrativos e interpretativos a elas associados, são outro traço distintivo do Centro, a que se unem diferentes projectos, não obstante a variedade de abordagens e metodologias por eles adoptados.

 

PUBLICAÇÃO > J.A

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