Seja em que continente for, a língua é coisa demasiado viva para ser… terraplenada.

Calão é palavra matreira. No dicionário, tanto lhe dá para a mandriice (como calaceiro) como para a pesca (chama-se calão a um barco usado na pesca do atum), mas mais comum é tal palavra servir para designar uma “linguagem especial usada por certos grupos”. Não há quem não saiba o que é, na verdade. Pois hoje é lançado no Porto, por alguém que de calão não tem nada, um Dicionário de Calão do Porto revisto e aumentado pelo seu autor, João Carlos Brito, um professor portuense e portista. Muitos saberão de cor expressões que lá vêm impressas, e outros, lembrando os antigos discos dos Trabalhadores do Comércio, imaginam o que é possível fazer, bai num bai, com “a pronúncia do Norte” (olá, GNR).

Mas o ressurgir deste Calão, actualizado (a sessão de lançamento no dia 5, no Café Progresso), serve de pretexto para recordar que, muito à margem das academias (e mais ainda dos acordismos), há por esse mundo fora exemplos de expressões, localismos, regionalismos e modos de falar e de dizer que enriquecem as línguas crescendo nelas mas à sua margem. Eles são a tal “linguagem especial usada por certos grupos”, que em grande parte se torna identificativa de uma região, uma cidade, um lugar. Este ano, por exemplo, surgiu nas livrarias o Pequeno Dicionário Caluanda(Guerra & Paz, 2016), com “1001 termos da fala de Luanda explicados em português” por Manuel S. Fonseca, editor e autor, antigo crítico de cinema, que viveu na capital angolana entre 1959 e 1976.

E lá estão, no falar dos caluandas (ou naturais de Luanda), palavras que Portugal ao longo dos anos foi também usando ou absorvendo na sua gíria popular: garina (rapariga), galar (olhar de forma sedutora uma rapariga),ganza (estado de êxtase causado por drogas), guito (dinheiro), amigar (viver maritalmente), (sim), bué (muito), buereré (muitíssimo), candonga(tráfico ilegal). Isto era o que já sabíamos. Mas vejam o que uma simples acentuação pode fazer a uma mesma palavra: Áka é uma expressão de espanto; e Aká é o diminutivo dado a uma AK47, uma Kalashnikov soviética. Que também pode ser kalaxi. Mais: biaco é branco; boiado é bêbado (xibadotambém é); camuelo é invejoso; campar é descansar ou morrer; kabomba é polícia; kibuca é prostituta; kinamas são as pernas; mono é filho, criança (sendo ndengue também criança mas o filho mais novo, caçula no Brasil);nzala é fome; ngambi é informador; nguzu é força; ruar é expulsar; salar é trabalhar, não é pôr sal em alimentos; sandapé é pontapé; tchacar é comer ou fazer amor; umar é acabar; vizar é bater ou agredir; e zigaiar é fugir. Dos 1001 registos, é apenas uma pequena amostra!

Como este, há outros dicionários que nos levam a outras falas e dizeres. Atravessando o Atlântico, até ao Brasil, veja-se o Dicionário da Língua Baianêsa, de Luciano Jatobá (Feira de Santana, 2004), que regista inúmeras palavras e expressões usadas na Bahia (sobretudo no interior), com um pequeno apêndice para termos usados nalguns estados do Nordeste. Por exemplo: marrudo é uma pessoa forte no Maranhão; avexado é apressado no Piauí; abirobado é maluco no Ceará; galalau é uma pessoa alta no Rio Grande do Norte; cubar é olhar na Paraíba; afolosado é frouxo em Pernambuco; e assuntar é ouvir e entender em Alagoas. Mas voltando à Bahia. Morrer? Abutuar o palitó; Sofrer? Apanhar mais que mala velha pra tirar poeira. Dar e receber? Balainho vai, balainho vem. Alto e magro?Bulacha numa vara. Lugar distante? Cafundó dos Judas. Falador?Garganteiro. Invejoso? Olho grande ou olho gordo. Gente inconveniente por perto? Tem roupa na corda. Ladrão? Unha de gato. E como dizer a alguém: vais pagar-mas, tarde ou cedo? Tua batata está assando.

Ora atravessando de novo o Atlântico, agora rumo a Portugal, temos oDicionário do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves (Algarve em Foco Editora, 1996), que regista um lote (bem maior, diga-se) de “palavras, expressões e modos de dizer” algarvios. Vejamos: falar “à fina” é falar à política; pedir esmola é falcar; avistar ou ver bem é declarar; coisa mal feita éengeroca; consertar é enxabicar; danado ou zangado é marafado (e este será dos termos algarvios mais conhecidos e glosados no país); tagarelice é pai-sota; dizer mal de alguém, ou caluniar, é retraçar; frigideira com cabo é umtachinho de rabo; tareia ou sova é uma tuna; grande quantidade é xaraval; e coisa sem préstimo é zembel.

É, tudo isto, português? Quem o negará? Com as suas variantes, corruptelas e termos que se transmitem e também se transmutam de geração em geração, estes falares e dizeres são uma amostra riquíssima do saber popular e dos seus códigos. Seja em que continente for (e esta pequeníssima amostra abrange três), a língua é coisa demasiado viva para ser… terraplenada.

Já que estamos em maré de falares e de jogos de palavras, parece que anda o diabo à solta. Passos Coelho disse que o diabo viria até nós em Setembro; e Donald Trump garantiu que o diabo era Hillary Clinton. Portanto, se ambos estiverem certos, Hillary Clinton visitará Portugal em Setembro. Preparemo-nos. Talvez com forquilhas e um dicionário de diabês.

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