Sim, houve uma grande comunidade portuguesa no mais icónico bairro de Nova Iorque, e ainda há muitos portugueses a viverem ali, há 40 ou 60 anos. Quem o descobriu foi Ana Miranda, diretora do Arte Institute, quando foi para lá morar, num prédio de propriedade de uma portuguesa de Viseu. Foi realmente importante preservar esta história para as novas gerações. «Portuguese from SoHo – A story that changed geography» («Portugueses do SoHo – Uma história que mudou de Geografia»), já está a dar o que falar…

Foi um feliz acaso que levou Ana Ventura Miranda a realizar o documentário «Portuguese from SoHo – A story thar changed geography» («Portugueses do SoHo – Uma história que mudou de Geografia»), que será exibido amanhã, 16 de abril, no MOMA, e no dia seguinte no Anthology Film Archives, ambos com lotação já esgotada.. Quando há dez anos se mudou para Nova Iorque, a atriz, produtora e directora do Arte Institute foi viver para aquele que é o mais icónico bairro da cidade: o SoHo.
A proprietária do prédio onde se instalou era a D. Maria que ali vivia há largas décadas. A portuguesa da região de Viseu, então com mais de 80 anos, e o seu edifício onde vivam outros portugueses, foram a fonte de inspiração inicial para o documentário, mas rapidamente Ana Miranda percebeu que havia mais.
“As vezes, ao passar nos jardins, via uns senhores sentado nos bancos do parque com aquelas boinas típicas portuguesas, faziam-me lembrar a terra da minha avó. À medida que o tempo foi passando comecei a perceber que havia mais portugueses no SoHo, porque um dia ouvi-os falar em português”, conta. Mas foi ao começar as filmagens, há dois anos atrás que percebeu que às 7 horas da manhã, havia locais no bairro onde só se ouvia falar português, “porque eles iam a essa hora comprar os ‘papos secos’ (pão tradicional em Portugal)”. “Afinal, havia ali uma pequena aldeia portuguesa”, como recorda nesta entrevista ao ‘Mundo Português.

Morar num prédio de uma portuguesa deu-lhe a conhecer uma comunidade…
Descobrimos que havia ainda muitos portugueses no SoHo. Aquela comunidade estava muito envolvida na igreja, chegou a haver missa em português e há cerca de 13 ou 14 anos atrás ainda faziam a procissão com o andor de N. Srª à volta da igreja. Conseguimos até uma fotografia da Rita Barros onde se vê os portugueses numa dessas procissões. E há uma igreja no SoHo que tem no jardim uma imagem da Srª de Fátima com os três pastorinhos.

Referiu que via portugueses na rua, logo pela manhã, com sacos de papos-secos. Há mercados (delicatessen) portuguesas no bairro?
Havia três ‘deli’s’ portuguesas, agora há duas, porque uma fechou este ano. Quando vemos aqueles ‘M&O’ e ‘M&M’ percebemos que são ‘Manuel & Oliveira’ e ‘Manuel & Manata’. E lá dentro há tremoços, águas portuguesas, os papos-secos, que os americanos chamam ‘portuguese roll’…

E o projeto inicial alterou-se…
Sim, porque ao investigarmos melhor, percebemos que o documentário não poderia ser apenas sobre a D. Maria, uma portuguesa que tinha um prédio no SoHo, e mantinha as suas tradições tal qual vivesse em Viseu. O documentário tinha que ser sobre toda uma comunidade portuguesa que ali vivia. Começamos a filmar, há dois anos atrás, e fomos reunindo histórias. São pessoas que mantêm Portugal e as suas vivências perto de si: os objectos em casa, a decoração – têm na parede um quadro da Última Ceia – a maneira como se vestem.
Quando se fala em comunidade portuguesa nos Estados Unidos, as pessoas pensam em Newark. Mas imaginar que algumas destas pessoas ainda vivem no SoHo, grande parte delas desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e que num local como aquele bairro que se alterou tanto nestes 70 anos, conseguiram manter tudo igual, é extraordinário. A absorção pelas outras culturas seria normal, mas não foi o caso. Havia uma série de negócios portugueses, havia catequese, a escola de Português, o rancho. Uma das pessoas com quem falamos disse que havia à volta de sete mil portugueses no SoHo, um bairro onde só viviam portugueses e italianos.

Ao falar com estas pessoas, percebeu porque foram parar àquele bairro de Manhattan?
Porque ali estavam as fábricas e a indústria têxtil. Há uma coisa muito interessante neste documentário: não é apenas a história dos portugueses, mas também a história do bairro, já que as duas histórias estão intimamente ligadas aolongo de várias décadas.
Quando as fábricas saíram dali, grande parte dos portugueses também saiu, porque as senhoras perderam os empregos. Mas a forma como contam a sua ida para lá é fabulosa. Elas chegavam ao bairro e logo no dia seguinte outra portuguesa que já lá vivia ia com elas pedir emprego na fábrica. Sem saberem falar inglês, contavam o número de ruas até chegarem à fábrica porque no outro dia, já tinham que ir sozinhas. A história destes portugueses é extraordinária.
Ao mesmo tempo, vemos que Portugal tem uma herança naquela zona tão importante de Nova Iorque e o nosso objectivo é conseguir que essa herança seja recuperada, porque daqui a alguns anos, já não existirá nada.
Uma das coisas que gostaríamos muito era que uma daquelas ruas recebesse também o nome de ‘Portuguese Street’. Sabemos que vai ser difícil, mas estamos a tentar. O documentário e o evento que vamos voltar a realizar no Soho em Maio (‘Portugal in SoHo’, que terá lugar nos dias 27, 29 e 31 de Maio), e que realizamos pela primeira vez em 2015, estão a mostrar que há uma herança lusa, que os portugueses estavam ali.

O primeiro passo é revelar essa história que poucos conhecerão…
Nem os próprios portugueses conhecem. Mas agora, quando vamos a Newark ou a Long Island e referimos que havia portugueses no SoHo, alguns lembram-se que afinal existiam três clubes portugueses naquele bairro. Um deles era enorme, chegou a atuar lá a Amália Rodrigues, mas depois fechou porque não compraram o prédio onde a associação estava instalada, mesmo tendo dinheiro. Tiveram medo porque um membro da máfia italiana morava nesse prédio… Um dos entrevistados conta muito bem essa história, no documentário.

Grande parte desses portugueses, passaram por 60 anos, ou mais, da história de Nova Iorque. E criaram ali um ‘Little Portugal’…
Sim, alguns vivem lá há 40 anos, mas muitos ali estão há 60 anos ou mais. E são portugueses oriundos de todo o país, encontramos algarvios, nortenhos das Beiras ao Minho e Trás-os-Montes, madeirenses… só não encontramos alentejanos.
Mas o mais extraordinário é a maneira como conseguiram manter a sua ligação a Portugal, nos mais pequenos detalhes. Dentro das suas casas, estar em Manhattan ou numa pequena aldeia de Portugal, é a mesma coisa.
Eles até chegaram a fazer vinho, nas caves dos prédios. Os italianos compravam as uvas na Califórnia e depois os portugueses faziam o vinho na cave. Alguns ainda têm guardadas as tinas. Quando começaram a chegar os artistas, as caves passaram a ser usadas por eles e a produção de vinho acabou. Ainda hoje, se passarmos por determinados pontos do bairro, vemos que eles estão lá, à mesma hora, nos mesmos sítios.
Aliás, por isso, no início, quando os abordava para falar sobre o documentário e pedir os depoimentos, eles não me davam os números de telefone. Diziam: ‘mas eu estou sempre por cá, venha antes do meio-dia que estou sempre aqui’.

Mantiveram o seu modo de ser, mas souberam acompanhar e adaptar-se às profundas mudanças por que passou o bairro…
Eles foram ‘impenetráveis’ às mudanças dentro das suas casas. Mas percebem que o bairro está diferente e encontram justificação para todas essas mudanças. Falam do que gostam no bairro de hoje, de terem vizinhos de vários países. E dão-se bem com todos. Estamos a falar de pessoas, algumas das quais são proprietários dos prédios. A D. Maria, que faleceu com mais de 90 anos, era proprietária de dois prédios no SoHo. E se olhasse para ela, não acreditaria.

O que programaram para a exibição do filme?
Há duas informações importantes. A cantora Rita Red Shoes e o escritor José Luís Peixoto vão marcar presença. A Rita quis estar durante a exibição a tocar ao vivo a banda sonora do documentário, que foi criada por ela. Ou seja, a ideia é projetar o filme enquanto ela tocar piano ao vivo. Eu pedi-lhe para ela tocar uma pouco no início do filme e ela perguntou-me se não poderia tocar durante toda a projecção. Disse logo que sim.
O José Luís Peixoto escreveu os textos que ligam as entrevistas aos portugueses e os temas, e foi o narrador desses textos no filme. O documentário está dividido em temas: a chegada desses portugueses, a sua nova vida, a relação com os italianos, e o 11 de Setembro, que, aliás, é uma parte do filme que foi muito bem conseguida. É que eles estavam ali, a dez minutos do local e viram os aviões a embater nas torres.

Dos depoimentos, há histórias que a tenham ‘tocado’ mais?
São todas elas histórias de vida extraordinárias. Eles são tão genuínos que é impossível não gostar daquelas pessoas.
Mas há uma história que me impressionou mais. Muitos portugueses foram para os Estados Unidos, ainda antes de completarem 18 anos, porque os pais não queriam que eles fossem chamados para a tropa no Ultramar. Um dos depoimentos é do Sr. França, da Ilha da Madeira, a quem o pai mandou para os EUA, justamente para não ser enviado para a guerra no Ultramar. Ele não queria vir, mas o pai convenceu-o. ‘Escapou’ à guerra colonial, mas acabou por ter que ir para a guerra na Coreia, mesmo sem saber falar inglês.Não estávamos à espera de ouvir aquilo… Nós a perguntarmos sobre o prédio, do qual é proprietário e que fica ao lado do prédio da D. Maria, e impressionou-nos a maneira como acabou por contar essa história.
Depois do MoMA e do Anthology Film Archives, o filme seguirá para Berlim, com o apoio da Caixa Geral de Depósitos, depois Lisboa, no Centro Cultural de Belém, e fará ainda o circuito do NY Portuguese Short Film Festival, que já conta com 14 países.
Ana Miranda revela que o “objetivo é entregar estas entrevistas a instituições americanas, para que fiquem com um registo da história portuguesa em Manhattan, assim como têm a dos italianos, dos espanhóis e de outras comunidades”.

Teaser do filme

Ana Grácio Pinto

PUBLICAÇÃO > MUNDO PORTUGUÊS

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