Allan Katz foi embaixador dos EUA em Portugal entre 2010 e 2013. Apaixonado por Portugal, tem um apartamento na Ajuda, em Lisboa, onde vive grande parte do ano.

Quando em 2010 foi nomeado embaixador em Lisboa, Allan Katz só tinha estado em Portugal uma vez. “20 anos antes. Vim a Lisboa e ao Estoril. Lembro-me que fiquei no Sheraton”. Mas em duas décadas o país e a capital tinham ambos mudado muito. E Katz admite que à exceção do que aprendera ao estudar História – “como dividiram o mundo ao meio com os espanhóis, os Descobrimentos” – pouco sabia do país para onde vinha representar a América. Por isso começou a estudar e a ter aulas de português.

Passados seis anos, e três após ter deixado a embaixada, Katz prefere mesmo assim o inglês para uma conversa diante de uma imperial na esplanada do Linha d”Água, no topo do Parque Eduardo VII. Habituado a ser conduzido no carro da embaixada, foi a correr que Katz começou a ter noção de Lisboa. “Costumava correr mais. Estou a ficar velho!”, exclama, apesar da boa forma dos 69 anos. E recorda como tinha um duche no gabinete e ao sábado dispensava os seguranças para treinar para a meia maratona entre a embaixada, em Sete Rios, e o Tejo, descendo a Avenida da Liberdade. “Foi quando comecei a ter noção da cidade”. Até aí, os percursos – sempre diferentes por razões de segurança – que os motoristas seguiam deixavam-no confuso.

A rebeldia do embaixador acabou por dar origem a um episódio caricato, quando um dia em que corria sozinho tropeçou a feriu um joelho. “Tinha algum dinheiro na carteira e apanhei um táxi até à embaixada. Mas cheguei com um joelho a sangrar e todos a olhar para mim!”, lembra agora a rir.

Chegado a Portugal em abril de 2010, não precisou de muito tempo para se apaixonar pelo país e pelo povo. “Quase todos os portugueses que conheço são calorosos. Acho que a diferença para os americanos é que como os EUA são um país muito grande, nós não costumamos ter a família por perto, por isso arranjamos amigos. Aqui os meus amigos portugueses quando me convidam para casa deles tratam-me como se fosse da família”, explica entre um gole e outro. Sem conhecer ninguém quando chegou, Katz tentou fazer amigos portugueses. Até porque depressa percebeu que o staff da embaixada estava ali para servir o embaixador. “Quando não se tem um background privilegiado estamos habituados a fazer sozinhos uma série de coisas e não a ter pessoas para fazê-las por nós”, tenta explicar, antes de acrescentar que depressa percebeu que tinha de deixar os funcionários “fazer o seu trabalho”. Dos americanos com quem trabalhou, quase todos partiram entretanto, por isso restam os portugueses.

Trocados os óculos de sol pelos óculos de ver, Katz conta que um dos primeiros choques culturais que teve depois de chegar a Lisboa foi na cozinha da residência. Todos os dias quando regressava a casa, habituou-se a ir cumprimentar a cozinheira, a D. Isabel. “Conversámos um pouco”. Mas numa semana mais difícil, o embaixador esteve vários dias sem passar pela cozinha para a conversa de fim de dia com a D. Isabel. “Um dia vieram perguntar se estava chateado!” Katz apressou-se a garantir que não, apenas tivera uma semana mais ocupada, mas a partir de então e até deixar de ser embaixador, não passou mais um único dia em Lisboa sem uma visita à cozinha. “Foi aí que percebi como os portugueses são diferentes dos americanos”, explica agora.

Fora da embaixada também fez muitos amigos. De tal forma que, quando no verão de 2013 ficou a saber que tinha de regressar aos EUA, decidiu que gostaria de manter “uma presença confortável” em Portugal. Mas era tudo complicado: “Comprar casa… Os impostos…”A oportunidade chegaria num jantar com o então embaixador britânico em Lisboa. Alexander Ellis tinha sido destacado para o Brasil. “Perguntámos o que ia fazer com o apartamento em Lisboa” recorda Katz, antes de acrescentar que impôs logo ali as suas condições “ser mobilado e a bom preço”, diz entre risos.

Negócio feito, Katz e a mulher, Nancy, começaram a mudar coisas da residência para o apartamento na Ajuda. “Roupa, fotografias”, tudo para tornarem aquela a sua casa para quando voltassem, no outono. É ali que hoje vivem nos muitos meses do ano que passam cá. “Adivinhe o que me perguntam logo quando digo que tenho uma casa na Ajuda? Se tenho vista! E tenho. Não tão boa como a da residência [do embaixador, na Lapa], mas é muito agradável”. Reformado das lides diplomáticas, Katz continua neste momento a trabalhar para algumas empresas quando está em Portugal. E são elas que lhe fornecem o motorista. Nos restantes dias, transforma-se num lisboeta comum que tem de andar nos transportes públicos. “Para ir para a Ajuda apanho o 27”, conta, acrescentando que o autocarro para a dois quarteirões da sua casa. É ali que recebe as visitas dos dois filhos e onde espera em breve receber os netos, que ainda não conhecem Portugal.

Dos portugueses, Katz pouco tem a dizer de menos positivo, mas pressionado nesse sentido lá admite entre risos que o que mais o incomoda é que “todos achem que há uma conspiração contra eles”. E acrescenta com uma gargalhada: “Já viu quantas vezes investigaram a morte de Sá Carneiro?!”

Agora, prestes a voltar para uma temporada nuns Estados Unidos em plena campanha presidencial, não esconde a preocupação com o futuro do país. E remata: “Os EUA e a o mundo vão ter saudades de Obama!”

PUBLICAÇÃO > D.N.
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