Castro Rodrigues

Castro Rodrigues, um homem com qualidades pode fazer o extraordinário a partir do comum e minimizar a importância desse extraordinário com senso comum. Um homem com qualidades como Francisco Castro Rodrigues, falecido no dia 2 no hospital de Santa Maria, em Lisboa, aos 94 anos, depois de uma vida inteira dedicada à arquitectura, foi capaz de deixar marcas em Angola e Portugal sem nunca andar por aí a cultivar auras míticas. E o Lobito de hoje deve muito a quem lhe desenhou o traçado dos bairros, delineou os planos municipais e pensou a cidade como um corpo moderno que, um dia, haveria de ser desfrutado por todos como iguais.

Castro Rodrigues foi um homem de ideias e acção, esteve preso nas prisões políticas do regime colonialista português, no Aljube e em Caxias, devido às suas simpatias comunistas. Tinha 26 anos quando o levaram. Marcado por razões políticas, acabaria algum tempo depois por aceitar o convite do então presidente da Câmara do Lobito, Pinna Cabral, tendo vindo para Angola porque a um arquitecto ex-preso político não se abriam muitas portas na salazarenta Lisboa dos anos 1950 – mesmo tendo abandonado o Partido Comunista em 1952, junto com Mário Dionísio, seu amigo de toda a vida.

Chegou ao Lobito para uma comissão de quatro anos, ficou até 1988 quando diagnosticaram à mulher, Maria de Lourdes – actriz que abandonou a carreira para o acompanhar – paludismo endémico e os médicos recomendaram a viagem para Portugal.

Além da marca que deixou no plano da cidade (o de 1975 foi já aprovado pelo governo de Agostinho Neto), Francisco Castro Rodrigues deixou algumas obras emblemáticas da arquitectura angolana: o Prédio do Sol, o Mercado Municipal, o cine-esplanada Flamingo e o liceu, no Lobito; e a igreja e o liceu do Sumbe.

“Em Angola, estive só 34 anos. Construí muita coisa lá, sobretudo na cidade do Lobito. Era funcionário da câmara. Ainda fiz umas coisas para o Huambo; para Benguela é que não fiz nada”, contava o próprio numa entrevista a Ana Vaz Milheiro disponível na Internet e que se pode ver abaixo. “Eu era contra o regime de Salazar, por isso fugi para Angola”, resumia.

Como explicava Ana Vaz Milheiro, Castro Rodrigues fez parte do “grupo dos arquitectos que escolheu exercer nos territórios coloniais”, no seu caso, porque, por “razões políticas”, viu serem-lhe “frustradas as hipóteses de colocação em gabinetes oficiais na metrópole”.

O arquitecto tinha sido dirigente da Sociedade Nacional de Belas-Artes, membro do Sindicato Nacional dos Arquitectos e, principalmente, do ICAT – Iniciativas Culturais Arte e Técnica. Do ICAT saíram as principais teses do I Congresso Nacional de Arquitectura em Portugal, em 1948, onde um grupo significativo de arquitectos portugueses apresentaram “ao governo uma imagem de unidade sobre dois pontos importantes: a rejeição do Português Suave [ideia tradicionalista do Estado Novo de construir a casa genuinamente portuguesa, com Raul Lino como o seu grande representante] e a chamada de atenção para o problema da habitação e o papel da arquitectura e urbanismo modernos na sua solução”.

Castro Rodrigues é o responsável, com a mulher, Lurdes Castro Rodrigues, da primeira tradução portuguesa da “Carta de Atenas”, o manifesto urbanístico resultante do IV Congresso Internacional de Arquitectura Moderna de 1933, redigido por Le Corbusier, onde a cidade é vista como funcional e as necessidades do homem deviam estar claramente definidas e solucionadas. É o conceito de urbanismo moderno que se define com directrizes e fórmulas passíveis de ser aplicadas internacionalmente.

Castro Rodrigues mostrando um plano da Catumbela e do Lobito | Foto DR

É por isso que, se ao mesmo tempo a ida de Castro Rodrigues para o Lobito era um exílio político-ideológico, por outro era uma libertação das restrições, uma maior oportunidade para colocar em prática as suas ideias: “A distância das colónias permite experimentar a adopção dos princípios da arquitectura moderna, com base na arquitectura corbusiana principalmente, mas também por via da arquitectura moderna brasileira”, escreve Daniela Alcântara no ensaio “Arquitectura Moderna: Do Brasil a Portugal e África – Alguma Investigação e Leitura”, publicado no livro Portugal Brasil África: Urbanismo e Arquitectura – do ecletismo ao modernismo.

Liceu Almirante Lopes Alves (LALA) – Lobito

O seu interesse pela arquitectura brasileira intensifica-se com a sua experiência africana. Acaba por vir a fazer parte da direcção do Núcleo de Estudos que organiza, em Junho de 1961, nas instalações da Associação Comercial, a exposição Arquitectura Moderna Brasileira. A exposição contava com um ciclo de conferências e a sua encheu o salão da biblioteca da associação.

A sua principal preocupação é adaptar a arquitectura moderna ao clima africano, daí surgem os sistemas de ventilação cruzada e as varandas pronunciadas, como acontece na sua primeira obra no Lobito, o edifício que ficou conhecido como Prédio do Sol. Desenhado ainda em Lisboa e edificado quando chegou à cidade. O seu nome deriva do enorme painel cerâmico policromático desenhado por Ribeiro de Pavia para a empena (lateral).

predio do sol

Prédio do Sol, Lobito

“A analogia que Castro Rodrigues vê nessa produção entre o espírito progressista e o discurso político cruza-se com a adequação da linguagem moderna ao território africano – é uma inevitabilidade”, escreve Ana Vaz Milheiro em As Coisas Não São o Que Parecem Que São. “Insistindo numa ideia de civilização baseada na coabitação racial, religiosa, política e social”, o que Castro Rodrigues defende, por palavras e actos, é “uma sociedade colonial miscigenada e aberta”.

Como diz Ana Magalhães ao Público, “um dos traços da especificidade da arquitectura nestes territórios é a expressão de liberdade. O impulso de liberdade está presente na singularidade das obras construídas nestes países africanos desde o início da década de 1950”. Ana Magalhães é autora de Moderno Tropical – Arquitectura em Angola e Moçambique em 1948-1975, o livro que fez com a fotógrafa Inês Gonçalves (em Luanda, Lobito, Maputo e Beira) e que é a base da sua tese de doutoramento a defender brevemente.

“Combatente antifascista, perseguido pela polícia do regime, encontrou no Lobito um ambiente mais propício ao desenvolvimento de uma obra consistente, moderna, muitas vezes lúdica e expressionista, com recurso aos novos materiais e às suas potencialidades.” Assim se justificou o júri que lhe atribuiu em Portugal o prémio de arquitectura AICA/Ministério da Cultura em 2010.

Cinema Flamingo, Lobito

Na já referida entrevista, Castro Rodrigues minimiza o seu vanguardismo e esvazia o seu protagonismo, garantindo que sempre se agarrou aos programas, adaptando-se ao gosto do cliente. Por exemplo, em relação ao Cine-esplanada Flamingo, no Lobito, uma das suas obras mais emblemáticas (“entre mangais e praia, com elegante pala em betão, tensionada por cabos”, como afirma José Manuel Fernandes), a sua resposta é típica de quem nunca se pôs em bicos de pés. Foi escolhido para o fazer porque era amigo do proprietário e porque era o único arquitecto da cidade. E aproveita ainda a oportunidade para elogiar o engenheiro (a quem chama “cientista do betão armado”) que fez os cálculos da pala: “É uma estrutura realmente notável graças ao engenheiro Barros Machado”.

Também em relação à igreja do Sumbe, a resposta veio no mesmo tom. Transcrevo: “Nessa igreja do Sumbe, na Igreja do Novo Redondo, o arquitecto utilizou materiais muito inovadores? Não, era o que havia. Betão armado, betão armado, uns cálculos maravilhosos do engenheiro Resende de Oliveira, de quem pouca gente fala. Aquela igreja só foi possível com aquela estrutura extraordinária, estrutura maravilhosa desse engenheiro Resende de Oliveira, que mais tarde foi ministro das Obras Públicas”.

Igreja do Sumbe

Sinal de que nunca deixou de pensar o mundo a partir das mesmas bases ideológicas. Saiu do Partido Comunista nos anos 1950 mas nunca deixou de ser comunista (aliás seria candidato da coligação do PCP com Os Verdes em 1997, 2001 e 2005 à Junta de Freguesia de Colares, nos arredores de Lisboa – sempre em lugar não elegível).

A sua vida em Angola aproximou-o do MPLA, de quem haveria de ser militante (o n.º 35144, refere Dulce Neto na Sábado, citando as memórias do arquitecto organizadas por Eduarda Dionísio em Um Cesto de Cerejas: Conversas, Memórias, Uma Vida). Facto que o obrigou à fuga, em 1975, quando a UNITA entrou no Lobito. A fuga rocambolesca haveria de terminar em Lisboa. Mas, cinco meses depois, sabendo que o MPLA já controlava o Lobito, escreveu para a câmara a dizer que queria regressar depressa para assumir o seu cargo de arquitecto. E voltou.

Regressaria ainda, em 1995, convidado para as festas do Lobito. Viu os bairros que desenhara, emocionou-se por aqueles que o reconheciam na rua e sentiu que aquela também era a sua terra. Chamavam-lhe “o nosso mais-velho”.

REDE ANGOLA

 

Veja também:

Cinema Flamingo

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Uma arquitectura para reinventar o universalismo

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