lusofobia

Piadas e questionamentos sobre o passado colonial não devem ser rotulados como lusofobia dos brasileiros

Por GIULIANA MIRANDA E MAYARA PAIXÃO | FOLHAPRESS

Piadas e anedotas com portugueses, que vêm se tornando mais raras entre as novas gerações, ou questionamentos históricos e sociais sobre o passado colonial não devem ser rotulados como antilusitanismo ou lusofobia dos brasileiros, dizem acadêmicos de Brasil e Portugal ouvidos pela reportagem.

Os seis entrevistados discordam dos argumentos empregados pelo jornalista português Carlos Fino em recente entrevista ao jornal. Ele, que acaba de lançar o livro “Portugal-Brasil: Raízes do Estranhamento” (Ed. Lisbon International Press), fruto de sua tese de doutorado, afirmou que os brasileiros têm vergonha da herança portuguesa e tentam diluí-la, num antilusitanismo que está enraizado.

A historiadora Gladys Sabina Ribeiro explica que o antilusitanismo existiu no Brasil em períodos específicos da história, mas não como um sentimento nacional. Durante a época da independência, de 1820 a 1830, e nas décadas finais do século 19, o movimento esteve diretamente ligado a acirradas disputas no incipiente mercado de trabalho da época, quando a mão de obra de imigrantes portugueses era favorecida em detrimento de cidadãos brasileiros.

“[O antilusitanismo] foi um movimento de rua no qual portugueses foram alvejados porque representavam um modelo de vida que já não interessava mais”, descreve Ribeiro, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF). O primeiro governo de Getúlio Vargas, em 1930, chegou a decretar a Lei dos Dois Terços, norma que obrigava empresas a destinarem dois terços das vagas de trabalho para brasileiros.

Autora de livros sobre o tema, como “O Rio de Janeiro dos Fados, Minhotos e Alfacinhas: O Antilusitanismo na Primeira República” (ed. Eduff), Ribeiro tem sua obra usada como referência por Fino na tese do autor, mas discorda do que descreve como a essencialização e a generalização do antilusitanismo feitas por ele na entrevista.

O historiador Thiago Krause, professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), reforça os argumentos de Ribeiro e diz que é crescente a aproximação intelectual entre portugueses e brasileiros, demonstrativo de que a lusofobia não encontra terreno fértil em espaços como a academia.

Autor de livros e artigos sobre o período colonial, Krause explica que intelectuais já buscaram em Portugal as motivações das desigualdades brasileiras, mas por razões essencialmente econômicas, não xenófobas. “Portugal era um dos países mais pobres da Europa Central; a tentativa era entender as raízes do subdesenvolvimento brasileiro.”

A defesa de que o Brasil deve ter mais símbolos que remontem à ligação com Portugal diz muito sobre a ainda escassa discussão do legado colonial feita no país europeu, pontua o antropólogo português João Leal, que leciona na Universidade Nova de Lisboa.

“O exame do passado colonial tem sido muito mais explorado em relação às ex-colônias africanas do que ao Brasil; e o tema da escravatura ainda é complicado de introduzir em Portugal.”

Como exemplo, o professor menciona a estátua do padre António Vieira ao lado de três crianças indígenas, inaugurada em uma praça pública lisboeta em junho de 2017. O monumento foi alvo de críticas, muitas proferidas pelo movimento negro local, e chegou a ser vandalizado em 2020 em meio à onda global de protestos contra estátuas associadas ao racismo e à escravidão.

Leal, que fez trabalho de campo no Sul e no Nordeste brasileiros e atuou como professor convidado da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), afirma nunca ter se deparado com lusofobia. Ele critica a atribuição da prática à sociedade brasileira: “Não existe ‘o Brasil’ ou ‘os brasileiros’, mas os Brasis e os brasileiros”.

A cientista social brasileira Ana Paula Costa, pesquisadora do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, concorda com o antropólogo. Para ela, é um equívoco falar em antilusitanismo entre os imigrantes em Portugal –são pelo menos 183.993 brasileiros vivendo no país, segundo dados oficiais. “Acho antilusitanismo uma palavra muito forte, é quase como se fosse um racismo reverso. Há uma relação de poder muito desigual”, afirma ela.

“Até pela questão colonial, ainda está muito presente no Brasil aquilo que nós costumamos chamar de síndrome de vira-lata, que é endeusar tudo o que vem do Norte global”, continua. “Isso ainda vem da relação colonial de admirar e de colocar em um patamar superior tudo aquilo que vem da metrópole.”

Costa chama a atenção, no entanto, para um movimento crescente de contestação, entre as comunidades de imigrantes em Portugal, das narrativas tradicionais sobre o colonialismo lusitano.

“Em Portugal, a história é contada de uma forma que tenta amenizar as mazelas e as violências que esse passado tem. O que tem sido feito aqui, sobretudo por brasileiros, é trazer uma outra narrativa. Isso não é um antilusitanismo, é só uma tentativa de trazer uma nova versão da história que sempre existiu, mas que não conseguia ser contada.”

Professor do Instituto de Humanidades da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), o historiador Lourenço Cardoso diz que houve um distanciamento do Brasil em relação às referências portuguesas, mas em grande parte porque a hegemonia cultural esteve concentrada nos EUA, não no país luso.

Isso, entretanto, não significa que traços da herança portuguesa não estejam enraizados e sejam reverenciados entre os brasileiros, pontua Cardoso, que estuda a branquitude. “A tão divulgada característica de que o brasileiro convive bem com o outro, raiz do mito da democracia racial, é uma herança portuguesa, bem como o complexo de vira-lata.”

Ele é crítico à sugestão feita por Fino sobre a criação de um feriado para assinalar a chegada dos portugueses. “É uma proposta de mau gosto, colonial e racista. A chegada dos portugueses significou o extermínio dos povos originários e a escravização dos africanos”, diz.

O ex-ministro e ex-deputado Aldo Rebelo (sem partido), autor de um projeto de lei que no final da década de 1990 propôs punições para quem abusasse de expressões estrangeiras, diz que a relação luso-brasileira está coberta de demonstrações de afeto e simbologia. “No 7 de Setembro, por exemplo, o que nós mais lembramos é de Portugal. O líder da nossa Independência era português.”

Ainda que observe uma revalorização da herança portuguesa, pondera que o Brasil, em comparação com os outros países que compõem a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), emprega poucos esforços. “E isso seria um benefício inclusive geopolítico, porque é a comunidade no mundo com a qual temos mais identidade.”

 

FONTE > O TEMPO

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