Para entender como Ricardo Vice Santos, 29 anos, se cruza com Chamath Palihapitya (um dos homens fortes de Mark Zuckerberg, no Facebook), e consegue, em 25 segundos, um milhão de dólares para investir na suaapp — a Roger — é preciso recuar a 2005.

Ricardo tinha 19 anos. Estudava em Faro, na escola secundária, e participou nas Olimpíadas Nacionais de Informática. Já era apaixonado por programação, mas não foi só por isso que saiu do concurso com o primeiro lugar no bolso. Das Olimpíadas, no Algarve, passou para a licenciatura em Engenharia Informática e Computação, em Lisboa, no Instituto Superior Técnico.

Tudo no seu lugar, Ricardo Vice Santos preparava-se para ser o exemplo de mais um jovem com boas notas que ia terminar um curso com sucesso, numa das mais prestigiadas universidades do país. Mas não foi bem assim.

Ricardo Vice Santos, Roger

Logo no primeiro ano, a vida volta para trás, e Ricardo vê-se obrigado a regressar a Faro. O divórcio dos pais e os problemas financeiros que daí emergiram levam-no a dizer adeus ao Ensino Superior. A próxima paragem não é outra universidade, a da sua terra natal, mas o aeroporto de Faro, onde começa a trabalhar, muitas vezes em turnos duplos. “A carregar malas”, conta ao Observador.

Lembro-me que na altura estava muito obcecado com a história do Larry Page e do Sergey Brin [cofundadores da Google], porque eles eram programadores. Eu não sou obcecado com dinheiro, mas a verdade é que quando não o tens, então sim, és muito obcecado com dinheiro. E pensava que se eles chegaram onde chegaram, porque é que eu não haveria de chegar? Então, meti na cabeça que, para o conseguir, tinha de duplicar o meu salário todos os anos”, conta.

FRANKFURT, GERMANY - OCTOBER 7: Google founders Sergey Brin (L) and Larry Page (R) joke prior to a news conference during the opening of the Frankfurt bookfair on October 7, 2004 in Frankfurt, Germany. The Frankfurt Bookfair is the world's largest event of it's type and this year's focal theme "Literature of Arabia" will run until October 10, 2004. (Photo by Ralph Orlowski/Getty Images)

Objetivos definidos, despede-se do aeroporto e vai trabalhar para uma loja em Faro, onde arranja computadores. Mas este estava longe de ser o emprego que desejava e havia uma meta para atingir 12 meses depois. No ano seguinte, volta para Lisboa. É na capital que consegue o primeiro emprego como programador, numa startup. E o salário duplicou. No ano depois desse, com o calendário a bater nos 12 meses, vai para Barcelona trabalhar noutra startup. E o salário duplicou.

É na cidade catalã, em 2009, que tem o primeiro contacto com o Spotify, através de uma namorada sueca. Já apaixonado por música, apaixonou-se também pelo serviço sueco de streaming de música. (Amor com amor se paga?) E a contagem decrescente começa — ele precisava de voltar a duplicar o salário, lembra-se?. É então que surge a oportunidade de ir trabalhar para a Nokia, na Finlândia.

Achava Ricardo que ia trabalhar para Helsínquia, mas a vida voltou a trocar-lhe as coordenadas do GPS. Quando aterra na capital finlandesa, percebe que estava no sítio errado e que teria de trabalhar não na sede da Nokia em Helsínquia, mas noutra cidade. E nesse instante, para Ricardo, a solução já não podia ser aquela. O namoro com o Spotify já existia, e tal como um recém-apaixonado, agarrou no telefone e convidou-o para sair. Ou melhor: para o receber.

Liguei para o meu recrutador no Spotify e disse ‘sei que isto pode parecer bizarro, mas se aparecer aí amanhã, consegue dar-me uma resposta amanhã, mesmo que seja um não?’. Comprei um bilhete só de ida para Estocolmo, em primeira classe, porque já estava tudo esgotado. Foi o bilhete mais caro que comprei até hoje. Cheguei, fiz a entrevista mais longa da minha vida e fiquei”, conta.

Quando Ricardo chegou ao Spotify, com 23 anos, trabalhavam lá cerca de 50 pessoas. Quando saiu, cinco anos depois, trabalhavam perto de 2.000. Cerca de 500 tinham sido contratadas indiretamente pelo português, que passou de engenheiro de software a responsável pelo crescimento de novos mercados da empresa sueca.

A viagem, o amigo e mulher da vida dele. Tudo num só dia

A 29 de março de 2011, a rota do GPS muda outra vez. No trabalho, na amizade e no amor. Sim, acontece tudo no mesmo dia. Falta meia hora para o primeiro encontro com Elin – de quem hoje está noivo – quando recebe o email que o colocaria mais perto da (ainda não pensada) Roger e do (já ídolo) Chamath Palihapitya. Tinha sido destacado para, com o colega Andreas Blixt, lançar o Spotify em Nova Iorque. Quando chega ao pé de Elin, a primeira coisa que lhe diz é:

Olá, Elin. Acabei de saber que vou mudar-me para Nova Iorque.”

As hipóteses do primeiro encontro dar origem a um segundo ou a um terceiro podiam ter sido eliminadas logo ali — “Devo ser a pessoa que mais tem a agradecer ao departamento de imigração norte-americano”, conta ao Observador. Mas o restaurante de sushi estava marcado, Ricardo queria mesmo conhecer Elin, e o encontro manteve-se (transformou-se mais tarde num pedido de casamento). No final, Ricardo quis mostrar-lhe onde morava a sua primeira paixão em solo sueco: o Spotify.

Chegou ao escritório por volta das 23h00 de 23 de março – trazia Elin numa mão e a caixa com o sushi que sobrou do jantar noutra. E estava apenas uma pessoa a trabalhar: Andreas Blixt, que ainda não conhecia. Nessa tarde, Ricardo tinha ficado a saber que iria com Blixt lançar o Spotify em Nova Iorque, lembra-se? Deu-lhe o sushi nessa noite. Mais tarde, deu-lhe a amizade. E o 29 de março tornou-se no “dia mais marcante” da sua vida.

Andreas Blixt, Roger

Aterrou com Blixt em Nova Iorque para lançarem juntos o serviço destreaming de música, vários meses depois. Na cidade que nunca dorme, já Elin dormia – os atrasos na atribuição de vistos fizeram com que a sueca conseguisse mudar-se para os Estados Unidos primeiro que Ricardo. E foi num dos eventos em que participaram para promover o Spotify, que nasceu o bichinho que o levaria à criação da Roger: a maratona de 12 horas que tiveram de correr (leia-se programar) para lançar uma app de música para festas, o Spartify.

Estava dado o primeiro passo. Quando o Spotify decidiu, por razões estratégicas, suspender o lançamento de novos mercados, Ricardo Vice Santos começou a sentir que talvez a empresa já não estivesse a aprender tanto com ele. E ele também não estava a aprender tanto com a empresa. Desafiou o amigo a começarem a testar algumas ideias ao fim de semana, com o mesmo método que utilizaram para o Spartify: 12 horas seguidas focados só naquilo. E a viagem começou.

Uma cabeçada num poste que lhe valeu uma ideia milionária

Há um dia em que Ricardo sai de casa, atrasado para uma reunião, enquanto fala por sms com um dos seus melhores amigos, na Suécia. Pelo caminho, enquanto decidia que aplicação de chat utilizar, ia (literalmente) batendo num poste. Escrever no telemóvel e andar ao mesmo tempo parecia uma tarefa hercúlea. Foi aí que percebeu que fazia falta uma app de utilização simples, que permitisse recuperar a ligação entre as pessoas, mas que não obrigasse o outro a ter de ouvir e responder naquele momento. Nem a escrever. Só falar.

Roger

A ideia começou a ganhar forma, discutiu-a com Blixt e começaram a desenvolver uma versão muito preliminar daquilo que hoje é a Roger. Quando achou que tinha de se focar mais em tentar perceber se a appteria algum futuro, tirou uma licença sem vencimento. Viajou para Londres, Suécia, Finlândia e Silicon Valley para se reunir e discutir o projeto com algumas das pessoas em quem mais confiava, os seus mentores. Até que chegou a festa de Natal de 2014 do Spotify. Foi o último momento que Andreas e Ricardo passaram na companhia dos agora ex-colegas. Despediram-se.

As primeiras impressões dos mentores não tinham sido totalmente positivas. Acreditavam na capacidade de Ricardo e de Blixt, mas temiam o mercado das aplicações de mensagens, um dos mais difíceis de vingar, explica Ricardo. Conseguiria a Roger regressar à intimidade da voz, num mundo que fala muito mais por chat do que por telefone? Como nunca gostou de virar costas a um bom desafio, mergulhou na aplicação juntamente com o amigo e começaram a testá-la em vários dispositivos.

A ideia era que fosse fácil de utilizar e que qualquer pessoa que quisesse enviar um Roger pudesse fazê-lo, mesmo que a outra pessoa não estivesse registada na plataforma. Receberia um sms com indicação dolink onde deveria ouvir a mensagem.

Queríamos que fosse humano, que não fosse possível gravar e editar, porque isso ia matar a plataforma. O valor da Roger está na espontaneidade”, conta.

“Roger that”. Da rádio ao walkie-talkie do século XXI

Em janeiro, a Roger angariou um milhão de dólares (perto de 890 mil euros) de investimento numa operação liderada pela Social Capital, fundada por Chamath Palihapitya, responsável pelo crescimento de utilizadores do Facebook entre 2007 e 2011 (e o executivo com mais tempo de casa). A aplicação móvel que visa ajudar familiares e amigos a comunicarem em fusos horários diferentes, como se fosse um walkie-talkie, chamou a atenção de meios internacionais como o The New York Times, o Huffington Post ou o TechCrunch.

Dez anos depois de ter vencido as Olimpíadas de Informática, bastaram 25 segundos a Ricardo Vice Santos para convencer Chamath Palihapitya, um dos homens fortes do Facebook, a ficar interessado na aplicação. Mais tarde, o interesse traduzir-se-ia num milhão de dólares – por enquanto.

Na primeira reunião que tive com o Chamath, ele olhou para a ‘app’, escolheu alguém da lista de contactos dele e mandou um Roger a dizer ‘olha aqui esta app que estou a testar’. E 25 segundos depois teve uma resposta dessa pessoa. Ficou logo impressionado. Perguntava como é que aquilo tinha sido possível”, lembra Ricardo.

Ricardo conta que pode ter sido apenas uma questão de sorte — “se calhar, a pessoa estava sentada no sofá, sem nada para fazer” — mas o que é certo é que Ricardo nunca vai esquecer o ar surpreso de Chamath, quando recebeu um Roger de volta, em 25 segundos.

Depois da primeira ronda de investimento, a equipa cresceu para seis pessoas e Ricardo não planeia contratar mais ninguém, por enquanto. O foco está todo no desenvolvimento do produto, que já chega a “milhares de pessoas” em mais de 120 países. “Não quero parecer um adolescente eufórico no dia do baile de finalistas. Quero fazer isto devagar e bem. Quando conseguir uma coisa, passo para outra. Quero fazer com que o produto que temos agora não tenha nenhuma falha, nada que corra mal”, conta ao Observador.

Quantos Roger cabem numa hora e meia?

Enquanto o Observador esteve a falar com Ricardo, utilizadores de vários pontos do globo utilizaram a Roger para lhe dar feedback da aplicação. Foram mais de 15 notificações (a maioria de desconhecidos), numa hora e meia. Uma das críticas foi corrigida por um dos membros da equipa, Pedro Veloso, no café onde estávamos em plena baixa lisboeta. Bastaram-lhe dez minutos. E é assim que uma equipa de seis pessoas se transforma numa de 200, explica Ricardo. Porque decidiu ouvir todos os utilizadores.

Deito-me quase todos os dias às 4h00 da manhã, porque respondo a todas estas notificações. É difícil, mas acredita que é o momento mais recompensador do dia. É obvio que vai chegar o dia em que não vou conseguir continuar a fazê-lo, mas se estas pessoas perdem o tempo delas a dar-me ‘feedback’ sobre a aplicação que estou a desenvolver, então o mínimo que posso fazer é dedicar-lhes também algum do meu tempo”, conta.

Roger, Ricardo Vice Santos

Apesar de não estar a ponderar mudar a Roger de Nova Iorque para Lisboa, por enquanto, diz que ficou impressionado com “o nível de sofisticação” que encontrou no ecossistema de empreendedorismo. “Talvez fosse preconceito meu”, revela. A conversa que se segue envolve investimento, avaliações e unicórnios, mas Ricardo não se alonga. Diz que o foco dele é o produto. Que quer desenvolver um bom produto. Que não quer que ele tenha falhas. O resto, diz, não o distrai dos objetivos.

Aquilo em que me foco é em fazer um produto que funcione bem. Se funcionar bem, então aí sim, pode ser algo enorme. Se não funcionar, vai para a pilha das startups que eram muito boas, mas que não funcionaram. E isso não é terrível”, conta.

Nesta jornada, o que é que mais o surpreende? Que nas centenas (senão milhares) de Rogers que já recebeu dos utilizadores, apenas um tenha tido um caráter mais agressivo. “É engraçado como as pessoas são simpáticas quando estão a falar, ao contrário do que tende a acontecer quando escrevem. Ontem à noite, estive a ouvir um Roger de 180 segundos de uma desconhecida a dar-me feedback sobre a Roger. E isto é uma relação interessante — porque não nos conhecemos, mas conversamos, é mais intimista do que uma mensagem de texto e menos intimidante do que um telefonema ou um vídeo”, conclui.

Quando foi a última vez que demoraram 25 segundos a responder-lhe a uma sms?

 

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