Quarenta anos depois da independência, muitos recusam chamar a Angola um país democrático. Há vários jornais, mas pouco pluralismo e espaço de debate. “Há pessoas que têm medo de falar. Não foi para isso que se quis a independência”. O processo dos 15 jovens “é desastroso para a imagem” do governo.

Irmãos, qual é a liberdade que nos deram/ se a arrogância política não cessa?/ Quem fala a verdade vai p’ó caixão/ que raio de democracia é essa?/ Nos livramos dos 500 anos de chicote/ mas não utilizamos a cabeça / depois da queda do colono/ em vez de uma independência/ deram-nos quase meio século de má governação

“A Téknika, as kausas e as konsekuências”, MCK

MCK está à porta da empresa de transportes onde trabalha, no bairro do Benfica. É fim-de-semana mas nem por isso ele tem o dia completamente livre. Mais uma hora deste dia em início de Abril e irá para a estação de rádio fazer um programa.

Nascido em 1981, com o curso de Filosofia, Katrogi Nhanga Lwamba (o seu verdadeiro nome) está a estudar Direito. Decidiu associar os argumentos de filosofia ao conhecimento sobre a lei para perceber as cíclicas violações que músicos, como ele, sofriam: “Como activista cívico tenho que ter conhecimentos fundamentais sobre direitos, sobre direitos humanos para compreender a dinâmica social do nosso país.” E para se defender.

Guia o seu carro, onde acontece parte da conversa, até um dos bairros mais falados dos últimos tempos, o Kilamba Kiaxi. É lá que  vive. A cerca de 30 quilómetros do centro de Luanda, é uma área a perder de vista com prédios todos iguais, betão no meio da terra laranja e entre estradas de via rápida, com algum espaço verde, a contrastar com os prédios encavalitados do centro da cidade e com as ruas esguias e cheias de água dos musseques.

Kilamba é aquilo que estará mais próximo de um bairro de classe média e é polémico porque os mais de três mil apartamentos dos cerca de 700 prédios foram vendidos por um preço muito superior ao anunciado e a comercialização esteve envolvida em negociatas obscuras. Aos olhos do modelo europeu, este seria um bairro social. Adaptado a Luanda é o equivalente a um bairro de classe média, explica MCK na janela do apartamento que aluga hoje por cerca de 500 dólares. É um preço razoável comparando aos da cidade, onde poderia pagar não menos de três mil dólares por um T1. “Temos uma minoria muito rica e uma maioria que é muito pobre, o Kilamba pode vir a preencher esse vazio”, explica MCK, depois de contar as confusões em que o projecto esteve envolto.

A questão é que para quem aqui vive a hora de acordar, para chegar ao trabalho às 8h, é 4h. Duas horas para ir, duas horas para voltar e algumas de espera à chegada para não apanhar trânsito dormitando dentro do carro: assim é o dia-a-dia da classe trabalhadora.

MCK é dos que mais critica o sistema nas suas músicas, desafiando as limitações à liberdade de expressão. A sua experiência, nesse capítulo, “é dura”. Para o jovem que diz usar a música “como ferramenta de participação activa naquilo que são as decisões da sociedade” a censura foi desde o início o outro lado da moeda.

Em 2003, ano a seguir à edição do primeiro disco, Trincheira de Ideias, “foi morto um lavador de carros no Mussulo, Arsénio Sebastião Cherokee, pela guarda presidencial por estar a cantar uma música minha de cariz social, contestatária ao regime no poder” (a música “A Téknika, as kausas e as konsekuências”). Em 2006, na véspera de lançamento do seu segundo disco, foi impedido de o vender “por causa da natureza crítica”. Em 2011, ano em que foi lançado Proibido Ouvir Isto, teve a casa arrombada. “A nível de liberdade de expressão sofremos muitos atentados, somos vezes sem conta censurados”.

Feitas as contas a 40 anos de independência, avalia, “não avançámos muito”. “Enquanto músicos de intervenção social continuamos a ter os mesmos problemas que os músicos de intervenção social da década de 1960/70 tiveram com o regime colonial. Artistas como David Zé, Urbano de Castro tinham muita dificuldade em fazer concertos, comercializar as suas obras.”

O mesmo se passa com esta geração: em 2014, MCK teve três concertos impedidos de prosseguir. “Sou uma vítima de violações cíclicas à liberdade de expressão. Faço leituras da realidade política e social angolana, nada contra a lei, tudo o que nos é permitido pela Constituição”. Músicas dele não podem passar nem na rádio, nem na televisão estatal.

Nascido num musseque, MCK diz: “A geração anterior à minha lutou pela independência e pela paz, a minha geração vai combater a corrupção, que é o grande entrave que impede de ter um crescimento social ao mesmo ritmo que o crescimento económico.”

E a sua geração “é destemida”, considera. “Há 10/15 anos ninguém falava da sucessão do presidente, as pessoas eram mortas e não havia qualquer justificação. Hoje vão-se fazendo denúncias que vão a tribunal e a julgamento, são pequenos ganhos.”

Quem ouve as suas letras percebe bem quão MCK é destemido. Chamou “pai banana” a JES. Quando esteve em Lisboa, no MusicBox, em Setembro, fez pausa numa música – a música em que era para entrar a voz de Ikonoklasta, nome rapper de Luaty Beirão, em greve de fome há um mês por estar preso há quatro e exigir aguardar o julgamento em liberdade. Luaty Beirão é um dos 15 activistas acusados de tentativa de golpe de Estado contra o presidente José Eduardo dos Santos, e exige aguardar em liberdade o julgamento, marcado para dia 16 de Novembro.

O caso tem sido noticiado em vários países, dos Estados Unidos à Hungria. E a campanha de solidariedade mundial pela libertação dos presos não pára de crescer.

Pela primeira vez desde o fim da guerra em 2002, diz o jornalista Reginaldo Silva, o Governo está “a enfrentar a quebra de um certo consenso que havia à sua volta, muito particularmente da figura do Presidente Eduardo dos Santos” a nível internacional. E isto por causa do processo dos 15 jovens que se revela “desastroso para a imagem interna e externa do Governo”, diz por email.

“É extraordinário que o presidente e os seus homens continuem com as mesmas políticas de 1977 de inventonas de golpes de Estados para a defenestração dos incómodos”, comenta o activista e jornalista Rafael Marques. Os jovens mostraram ao presidente o “quão caduco está o seu regime”. A sua prisão teve o efeito contrário ao pretendido: “Para cortar um aparente mal pela raiz e evitar o efeito da bola de neve com pequenas manifestações, produziu uma onda de solidariedade mundial para com os jovens activistas, pela liberdade em Angola, e contra José Eduardo dos Santos”. Marques, que propõe uma solução de transição para o país (ver entrevista), não tem dúvidas: “O presidente enfiou-se num beco sem saída e é o fim da sua imagem e dos seus ardis enquanto político que sempre manipulou o seu povo, através do medo, para assenhorar-se dos seus recursos como se de bens pessoais se tratassem.”

 

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