Tem a sua origem quando a aventura dos Descobrimentos levou a múltiplas separações prolongadas. Como escreve o poeta, “Quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar, Para que fosses nosso, ó mar!”.

O filósofo romeno Andrei Plesu escreveu que “há apenas três tipos de tristeza: a russa, a húngara e a portuguesa”. Ao ser interrogado e interpelado sobre esta afirmação algo polémica, Plesu pediu que não o interpretassem literalmente, e continuou defendendo que “cada nação tem a sua versão de melancolia, umas mais fortes do que outras”. Da minha parte, acrescento que a tristeza de cada nação concreta evolui à medida que a nação em si evolui.

Concretamente, a tristeza portuguesa tem a sua origem — calculo — no Século XV, quando a aventura dos Descobrimentos levou a múltiplas separações prolongadas. Como escreve o poeta, “Quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar, Para que fosses nosso, ó mar!”. Esta é a tristeza que explicamos aos turistas, acrescentando que “saudade” é não só uma palavra portuguesa mas também uma palavra exclusivamente portuguesa.

A diáspora portuguesa continua (e não é só coisa dos últimos anos).

No entanto, com WhatsApps e low-costs e o que mais, a separação é um fenómeno menos marcado do que nos anos do Império. A saudade ficou no fado, mas a música mudou: a tristeza da separação deu lugar à tristeza da nostalgia. Não me refiro à “nostalgia comum” que se encontra em todas as pessoas e em todo o lado, a nostalgia dos “bons velhos tempos” da infância ou adolescência ou do que seja: a recordação — frequentemente deturpada — de um período concreto da história pessoal. Refiro-me antes a uma certa “nostalgia colectiva”, um suspiro pelo tempo em que Portugal era uma Império que impunha respeito.

Continuando este desabafo de História, Sociologia e Psicologia Social de trazer por casa, sugiro que estamos evoluindo para um novo tipo de tristeza, a que podemos chamar “tristeza comparativa”. Em 1970, os Estados Unidos reflectiam a minha ideia de bem-estar material (os carros e os aviões, as casas e as aparelhagens electrónicas, etc). Ora, qualquer medida minimamente razoável de bem-estar material indicaria que Portugal em 2016 se encontra muito melhor que os Estados Unidos em 1970; deveríamos estar contentes, mas continuamos tristes. O nosso “problema” é que estamos muito pior do que os Europeus que estão melhor: a “felicidade” tem muito de comparativo, e a tristeza também.

E não se trata apenas de comparação entre países. Para muitas famílias portuguesas, e especialmente nos anos mais recentes, o que custa mais não são as dificuldades económicas; o que custa mais é ver como há pessoas que, legal ou ilegalmente, beneficiam de níveis de rendimento e consumo totalmente desproporcionados à época de relativa crise económica.

A nova tristeza portuguesa é uma tristeza de indignação.

 

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