A relação entre o discurso memorialista contido na narrativa epistolar e biográfica e a construção da própria história estão em discussão entre hoje e sexta-feira na Universidade de Macau. A instituição de ensino superior acolhe uma conferência internacional que reúne investigadores dos vários territórios lusófonos.

Sílvia Gonçalves

Cartas, diários, biografias e auto-biografias, entrevistas. Até que ponto o discurso que rodeia a memória, centrado no íntimo e particular, contribui para a historiografia, acrescenta fragmentos à narrativa colectiva que ajuda a desvendar o devir dos tempos. A questão coloca-se ao centro da conferência internacional “Discursos Memorialistas e a Construção da História (África e Macau)” que hoje tem início na Universidade de Macau. Inocência Mata (na fotografia), que integra a comissão organizadora da conferência, fala ao PONTO FINAL da tentativa de perceber como são os discursos memorialistas fundamentais para repensar o percurso de comunidades e nações.

“É uma conferência que decorre de dois projectos, particularmente o projecto sobre discurso memorialista e a construção da história. Projecto de que sou coordenadora no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tendo vindo para Macau, achei que seria interessante confrontar as duas perspectivas, a ideia como os discursos memorialistas são importantes para a historiografia. No caso dos países africanos, a construção da nação, e no caso de Macau, na construção de uma comunidade imaginada”, enquadra a professora, que integra também o Departamento de Português da Universidade de Macau.

Nos fragmentos epistolares de cada um condensam-se dados e interpretações que ajudam à construção da narrativa de um território, explica Inocência Mata: “É interessante ver até que ponto esses discursos memorialistas, esses discursos que nós vamos rastrear através de entrevistas, de biografias, de auto-biografias, depoimentos, enfim, de uma série de discursos sobre o passado. Como é que esses discursos são importantes para nós repensarmos o percurso dessas comunidades”.

Uma construção histórica de que não está arredada a perspectiva pós-colonial: “Isto tem a ver com um segundo projecto, ver até que ponto é possível pensar essa comunidade a partir de uma perspectiva pós-colonial. Uma vez que é lugar-comum a ideia de que não se pode pensar Macau como uma colónia, como foram as colónias portuguesas em África, vamos ver até que ponto é possível repensar toda a produção cultural a partir de uma perspectiva pós-colonial”, conta a investigadora.

Num painel onde se enquadram duas dezenas de comunicações, cabe a Inocência Mata abordar a correspondência trocada entre Amílcar Cabral, histórico dirigente da luta pela libertação da Guiné-Bissau e de Cabo-Verde, e Maria Helena, sua primeira mulher, enquanto testemunho de uma época: “A minha proposta é ver como essas cartas, de um amante para a sua namorada, dão também o perfil de uma época, tendo em conta que Cabral é um nacionalista, uma fugira pública. E na minha perspectiva dão-nos essa informação de como foi a luta na clandestinidade. E isso é o que eu penso fazer através das cartas de Amílcar Cabral a Maria Helena”. Em cada uma dessas “narrativas testemunhais”, encontrou a investigadora o retrato de um tempo de convulsão política, de luta pela libertação dos povos africanos colonizados: “São cartas que falam de um período, que falam de uma luta. É nessa medida que eu acho que essas são cartas que também fazem parte do discurso memorialista”.

As restantes intervenções que integram um programa que se estende até 28 de Outubro chegam de investigadores das ex-colónias portuguesas em África, mas também do Brasil, de Macau e de Portugal. “Todas as comunicações trazem uma mais-valia de como hoje o testemunho não é apenas… normalmente nós vemos as biografias e auto-biografias numa perspectiva às vezes apenas do conhecimento do indivíduo. A ideia é ver até que ponto, para além do conhecimento do indivíduo, nos traz muita informação sobre o processo, no caso africano, sobre o processo nacionalista africano”, remata a investigadora.

 

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