Portugal e o Brasil partilham mais do que uma língua, mas é recorrente (na internet é um facto gritante) a animosidade linguística entre dois povos, a razão? Não há razões, no meu entender, para que isto suceda! Talvez alguém me possa explicar melhor.

Desde criança que o português do brasil – PT-BR – é-me próximo, assim como para a maioria dos portugueses. As novelas ( sim foram as novelas) permitiram-me ter alguma fluência numa língua que também é minha, mas num sotaque que não é meu. Expressões e palavras que não eram utilizadas em Portugal foram assimiladas de uma forma simples no dia a dia, outras nunca chegaram a fazer parte do meu léxico. Há uma palavra que eu gosto e uso em particular ‘Bacana‘, que terá em português de portugal – PT-PT – a equivalência de um ‘Fixe‘ ou de um ‘Baril‘.

Eu digo t-shirt e tu dizes camiseta, mas a verdade é que ambos temos orgulho em vesti-las, quando eu apoio o meu clube ou tu o teu time, ambos nos irritamos quando o nosso goleiro, que eu chamo de guarda redes dá um monumental frango! Tu dizes cara e eu digo gajo, eu chamo uma rapariga e tu uma moça e os 4 vamos beber uma cerveja numa tasca que pode ser boteco. Eu peço 4 imperiais e tu pedes 4 chopes, se eu fosse do norte do país pediria 4 finos, a noite foi longa e muita bacana, mesmo fixe, agora vou de comboio até casa enquanto tu vais de trêm. Combinamos amanhã à mesma hora? Na minha casa ou na tua? quem vai comprar a carne para o churrasco? Passo eu no talho ou tu no açougue? O que importa é que o frigorífico, que pode ser geladeira, esteja cheio de cerveja bem fresca!

Nacionalismos à parte, grande parte dos brasileiros não percebe o que os portugueses dizem, e nem é uma questão de não perceber a língua que é falada, mas sim ter a capacidade cultural de interpretar o que por vezes é dito e isso sempre me fez muita confusão, porque eu percebo perfeitamente o que é dito pelo outro lado. De facto, fosse através da tv ou através da música, a troca cultural entre Portugal e Brasil foi quase sempre feita num único sentido Brasil –> Portugal.

Nos últimos 15 anos o Brasil descobriu que afinal Portugal e os portugueses são mais do que ‘o padeiro’ ou alvo de alguma piada fácil! Hoje estamos mais próximos, culturalmente falando e isso é algo que me deixa bastante feliz. É comum ver actores portugueses em produções brasileiras, mas salvo raras excepções (filmes ou novelas de época) todos acabam por ter de falar PT-BR. Os atores brasileiros que participam em produções portuguesas falam como seu sotaque nativo, aliás é essa diferença que nos enriquece culturalmente e será sempre na diferença que estaremos mais próximos.

Se chegaram até este ponto e ainda não estão a espumar da boca com uma raiva Nacionalista exacerbada, a vociferar que ‘este portuga é louco‘, é porque percebem que este texto não é para criar conflito, mas sim para criar pontes assentes na visível e maravilhosa diferença entre dois países que partilham uma língua, mas nem sempre partilham a mesma linguagem.

Se o Português é uma língua reconhecida em todo o mundo é-o em boa devido ao povo brasileiro, estatisticamente são muitos, podem chegar mais longe e levar a minha, a vossa, a nossa língua a todos os cantos deste planeta.

Originários da cidade do Porto os Ornatos Violeta foram uma banda portuguesa de rock alternativo, composta por Manel Cruz na voz, Nuno Prata no baixo, Peixe na guitarra, Kinörm na bateria e Elísio Donas nos teclados. Uma referência na música portuguesa do final dos anos 90

“Se ela diz é tudo o que eu sei, Não dá para andar mais sobre a saia, Para mim procura não ver, E tal só faz com que ela caia. Escuta bem nada passa num dia, Fala fim mas com determinação, “Estar só torna tudo mais fácil”, Não é mais que ouvir teu coração. Se ela diz não posso pensar, Se eu não dormir vai ser mais caro, Cora mais se eu falo pro si, Não quer ouvir o que é tão claro, Escuta bem nada passa num dia, Fala fim mas com determinação, “Estar só torna tudo mais fácil”, Não é mais que ouvir teu coração. Eu sei como é bom estar só, Se és mais, Eu não sou, Porque amanhã já cá não estou, Eu vim dar mais que um beijo igual a mil. Ela diz “não é normal!”, E para agora vou analisar, Saltei do vazio que afinal é bem mais, E vim cair num mundo igual. Só aparenta. O erro foi deixar, A ironia da camera lenta, É não nos dar tempo para pensar. É fácil amar, E ser amado, É só ter jeito para falar o que é melhor de ouvir. Mas o calor que é tudo o que é bom, Só acontece quando nada é claro, Esconde o que é verdade e cru. Pornografia é vicio são, Mas fique em platão. Eu sou o rei masturbador. Eu sou um céptico a falar, Mas se a falar de amor, Eu julgo ter razão. Ser da terra dependente, É o dilema da semente. Contrariar, Não é coerente. Dona aranha coma o seu marido. Dona aranha não jante o seu marido. Dona aranha não coma e coma o seu marido. Dona aranha nada disto faz sentido”

Foi o Gabriel o Pensador que me ensinou, nos idos anos 90 do século e milénio passados, grande parte dos termos que me permitiram por exemplo ter noção da linguagem urbana do Rio de Janeiro. Os Trapalhões, com o Didi o Dédé Mussum e Zacarias, levaram-me a outro tipo de linguagem, talvez mais, comum mais popular.

Mas tudo começou bem antes, através dos desenhos de Mauricio de Sousa. Foram os livros de bd (gibis de quadrinhos) que me entrosaram com um português tão parecido com o meu, que a dada altura o sentia como meu. Obrigado Cascão, Mónica e Cebolinha e companhia pelo papel educacional que tiveram na minha infância.

Anos mais tarde o cinema deu outro passo na minha apropriação do português do Brasil. A penúltima fase foi a relação de amizade que criei com brasileiros, que me permitiu falar, ouvir e mais uma vez enriquecer-me culturalmente dentro de uma língua que é minha, mas não a minha! Acredito que o último passo chegará no dia em que for viver para o Brasil.

É comum ver pelo youtube muitas bandas que cantam em PT-PT e têm fãs do Brasil, mas que não conseguem perceber o que é cantado pelos artistas. Afinal falamos a mesma lingua, mas nem sempre nos entendemos… é a vida!

Deixo-vos aqui os Orelha Negra – Solteiro – com a participação de Sam the Kid (STK), Regula, Heber & Roulet Rmx.

Os Orelha Negra são um grupo – quinteto instrumental – que contam na sua formação Sam the Kid, Fred Ferreira, Francisco Rebelo, DJ Cruzfader e João Gomes e que cruza marcas sonoras do hip hop, da eletrónica, do soul e do funk. 

Hoje acordei com uma desconhecida Levei-a à saída, muito sorrateiro Tou solteiro como culpa falecida À espera que o roteiro coincida no estrangeiro Aqui adultos parecem adolescentes Querem brilhar na noite, querem fluorescentes Na Lisa onde se alcooliza o meu farol Mas ele desmoraliza se ela verbaliza “lol” Eu nunca fui da letra, da etiqueta e protocolo Mas para ela eu sou vedeta e quer tirar uma foto ao colo O tropa da beleza interior Na real sou mais preza do que predador P’ra maioria a bigamia é liberal Tive com uma amiga minha e para ela O ideal é terminar o dia em companhia casual Da simpatia à ousadia à terapia sexual O parro está fechado mesmo tendo o peito exposto Porque ele não está disposto a ter mais um desgosto Farta de aventuras, juras e promessas Melhor do que tu procuras, é quem tu tropeças Até veres que há indícios que são propícios Ou ficamos patrícios, com benefícios Pára, calcula e compara, reflito numa bula Enquanto o gula me apara A pensar na minha ex que já não é agora minha Perdi o que outrora tinha, era a quem batia coro Conforto, quando ouvia a campainha Que me punha mais na linha e ao menos fazia amor Agora sou um astro num arrasto, pra muitos é currículo Pra mim é cadastro Player fode player, feia ou sereia E amanhã sabemos na aldeia… ok? Rodei, girei, por vezes achei, ohh nãoo Eu não soube decifrar… ou talvez nem quis tentar (não sei, ou sei, ohh, o que será?) Hoje eu deitei-me com uma conhecida Entramos no prédio sem fazer barulho Pediu-me para guardar segredo, é comprometida Isto é se eu quiser voltar a ver o bagulho Isto é se eu quiser voltar a dar um mergulho No intimo dela e ficar a nadar no sexo Horas a fio até um de nós dar o “let’s” E assim a gente fica sem pensar no resto (eu) tou a ser honesto, vida na garganta Batida até às tantas e o meu vizinho em brasa Eu tou solteiro e sozinho em casa E em homenagem à Amy é só vinho em casa Poucas amizades, beijinhos e abraços Isso é um passo pros carinhos e amassos Se ela adora laços, eu vou-me embora, bazo Porque quando o móvel toca agora é só bagaços As mensagens passam a massagens Isso é uma passagem para as filmagens E quando tu pensas que és o número 1 É quando elas vêem que és só uma miragem Tenho uma amiga minha que para mim era o ideal Mas ela não lida bem com o ilegal E manjou o meu perfil mal eu perguntei Quanto é que isto tudo no Brasil vale Era apenas um saco, uns quantos mil e tal Mas ela é da igreja e disse “isso é pecado” Eu tou apaixonado, foi o que eu disse à bocado Mas ela nem sabe da missa a metade O amor é fogo e tu tens muita chama Parece que já tou-te a ver a ires por o puto à ama A gente a acordar na cabana com a fruta junto à cama Isto é uma semana, féria em Punta Cana”

PUBLICAÇÃO > OBVIOUS MAG
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