NUNO MELO, Deputado Europeu

Presente em Díli, à frente da delegação de observadores do Parlamento Europeu, destacada para acompanhar as eleições legislativas que deram a vitória ao CNRT e a Xanana Gusmão, fui confrontado por uma responsável da embaixada australiana, que em conversa perguntou o que é que nós, portugueses, fazíamos ali, do outro lado do Mundo. Respondi-lhe que ao contrário de muitos australianos, não estávamos em Timor pelo petróleo. E que provavelmente nunca compreenderia a razão.

Nas últimas semanas, os timorenses saíram à rua para festejar as vitórias da seleção portuguesa no Euro 2016, que sentiram como suas. Fizeram-no aos milhares, com a bandeira nacional, a nossa, verde e rubra em punho. O mesmo aconteceu em S. Tomé e Príncipe, Guiné, Cabo Verde e Angola, sem traumas ou crises de identidade.

A circunstância, por certo, adensou a perplexidade da zelosa funcionária australiana. Afinal, não há memória de manifestações equivalentes de outros povos, em relação às vitórias das seleções inglesa, espanhola, holandesa ou francesa.

O historiador britânico Charles Boxer registou em livro, no “Império Marítimo Português” – pena não seja de leitura obrigatória – a singularidade de um povo que superou as suas circunstâncias geográficas e demográficas, para alcançar e se fixar em todas as partes do Mundo mais cedo e até mais tarde do que qualquer outra nação europeia. A facilidade de relacionamento e o respeito com que os portugueses tratam os outros povos são, foram sempre, uma marca identitária.

Transposto para o futebol, os portugueses mereceram vencer o Euro 2016 dentro e fora dos estádios. Os portugueses nunca apoucaram os adversários. Não lhes dedicaram declarações deprimentes ou jocosas. Nunca classificaram de “nojento” o futebol gaulês, ou de quem seja. Não se disseram campeões sem disputar as partidas. Não lesionaram escusadamente os jogadores adversários. Nunca perderam, mas se assim tivesse sido, aceitariam com honra as derrotas. Principalmente, são magnânimos nas vitórias. Fosse suposto, Portugal decoraria, sem pruridos, a Torre de Belém com as cores da França.

Inconsolável depois da final, um adepto francês chorava copiosamente. Uma criança portuguesa, Mathis, deu-lhe a mão, confortou-o com palavras e deu-lhe um abraço sentido. Explicou mais tarde: “Eu sou sensível e quando vejo uma pessoa a chorar por causa de uma derrota compreendo. Fui ter com ele e consolei-o um pouco”.

Num simples gesto, a natureza de todo um povo. Que maravilha ser português.

PUBLICAÇÃO > J.N.

 

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