Tem Jorge Carlos Fonseca como Presidente da República e Mário Lúcio como ministro da Cultura. A cidade da Praia recebeu nesta semana o VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa

Tarrafal, entre as montanhas secas e o mar. Entre as ruas onde os cães dormem à sombra, os homens cortam o cabelo e os miúdos saem da escola e o antigo campo de concentração, onde morreu Bento Gonçalves e Edmundo Pedro suportou 70 dias na Frigideira, célula de tortura que atingia temperaturas incomportavelmente altas.

“Como se chama o que inventou o soneto? Não me lembro. Vou dizer Fellini, que também é italiano.” De repente, ouve-se da plateia: “Foi Petrarca.” Princezito, que nasceu no Tarrafal quatro anos antes da independência de Cabo Verde, não fica convencido. “Não deve ser, é sempre o amigo.” Apresentava alguns dos poemas do seu livro, Antigu Pensamentu, numa sessão à margem do VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, que decorreu durante esta semana na cidade Praia, ilha de Santiago.

Escritores que chegavam ao país que – ao contrário do que defendeu Platão na sua República, e veementemente disse que era coisa de evitar – é governado por poetas. Fala-se do Presidente da República e do ministro da Cultura, Jorge Carlos Fonseca e Mário Lúcio Sousa.

Naquela tarde, à frente de Princezito, que nasceu Carlos Mendes, estava a poeta angolana Ana Paula Tavares que ali, em Cabo Verde, reencontrou o doce de papaia verde, receita que lhe veio da mãe, da avó, e provavelmente de muito antes destas. Estava também Luís Cardoso, timorense que em parte deve a escrita ao desterrado português que foi parar à ilha de Taurus – onde o escritor então criança vivia – e abriu uma padaria. Por cada redação que tinha de escrever em português para a escola, fazia duas. Uma para si, outra para o filho do padeiro, que lhe pagava num pão com manteiga.

“Em minha casa não se comia pão. Comia-se batata doce e mandioca” recordava Takas, como é conhecido quase desde o dia em que, pelas boas notas, o pai lhe ofereceu aqueles sapatos de tacão alto dos anos 70. Ainda à frente de Princezito estava o açoriano Zeca Medeiros, com a voz que nenhum baleeiro estranharia no mar. O músico e poeta falava então no “crioulo de São Miguel”. Ele que, naqueles dias, tanto cantou Venham Mais Cinco de Zeca Afonso como Sodade, de Cesária Évora. Apelido que por toda a parte se escuta em Cabo Verde. Como Sónia Évora, a cantora que numa destas noites na cidade da Praia se escutou no Espaço Kaku Alves, bairro da Várzea. É a filha de Tututa, primeira pianista cabo-verdiana, que escutámos com Bana ou Cesária naquele país onde praticamente não se conhecem instrumentistas mulheres.

O motivo para tudo isto era o Encontro de Escritores, organizado pela União de Cidades Capitais da Língua Portuguesa (UCCLA) e a Câmara Municipal da Praia, que decorreu em torno da diáspora, da insularidade e da poesia.

Podemos imaginá-los, como estavam, sentados a uma mesa, divididos por painéis, dirigindo-se a uma plateia. Mas não podemos dar conta do que disse João de Melo sem o recordar a ler um texto de Goretti Pina, a escritora são-tomense que compôs o painel A Literatura e a Diáspora, com Ricardo Pinto, Yao Jingming, vindos de Macau, a ex-ministra e presidente da Academia das Letras de Cabo Verde Vera Duarte, a par do português Miguel Real. É neta de uma cabo-verdiana, e filha de uma são-tomense do Príncipe que “cantava morna em casa, enquanto fazia a lida.”

No painel A Literatura e a Insularidade, Luís Carlos Patraquim comparava a ilha de Moçambique ao Aleph do argentino Jorge Luís Borges: “um dos pontos do espaço que contém todos os pontos”. E enquanto o brasileiro João Paulo Cuenca, autor deDescobri que estava morto, descobria que não queria ir embora de Cabo Verde, Germano Almeida e João de Melo traçavam uma paisagem comum.

O primeiro falava da sua ilha natal, a Boa Vista, e de como eram os navios, que traziam “enormes sacos de cartas dos emigrantes”, o que marcava “os verdadeiros acontecimentos”. João de Melo recordava que, na sua infância, como na do escritor cabo-verdiano, “todas as manhãs havia gente a despedir-se porque iam para os Estados Unidos ou para o Canadá.”

Ele, que achava que o mar “não era liso, mas oblíquo, porque seguia até ao céu”, um dia perguntou à mãe o que era um comboio. A mãe também não sabia. Foi depois do primeiro tio emigrar, para trabalhar nos caminhos-de-ferro, e antes de ele subir a bordo e partir para o continente. “Vi que o mar afinal era plano, foi uma desilusão.”

Muitas outras vezes os países se cruzaram, em português e crioulo, entre domingo e quinta-feira. Fosse com José Luís Peixoto, no painel A Poesia e a Música, a recordar o ano que viveu ali mesmo, na Praia, antes de afirmar que, “na literatura, o som está presente e importa, mesmo quando lemos em silêncio”; ou o cabo-verdiano Abraão Vicente, ao seu lado, ao referir-se àquele país “onde toda a literatura é música”.

“A besta que nos fez camaradas”

José Fanha, sentado à mesma mesa, com Zeca Medeiros e Ana Paula Tavares, dizia naquele seu tom – quase sempre de verso – que aqueles que ali estavam lutaram, de uma outra forma, “contra a mesma besta colonial. A besta foi fantástica, obrigou-nos a ser camaradas, de língua, de poesia”. Cada qual o terá feito a seu modo. “Cabo Verde conseguiu juntar a canção da revolta com a canção da dança”, disse, recordando Fome 47, em que o corpo obedece ao ritmo onde se conta a enorme seca do ano de 1947 no arquipélago. Também Ana Paula Tavares, que antes ainda de falar mostrou a canção de Ruy Mingas – lembrando que poucos recordarão Mário António, que a escreveu -, Poema de Farra. “Eu própria, angolana, ficava muito chocada a ver os angolanos dançarem os massacres.”

Dedicado a novos escritores cabo-verdianos, no painel moderado por Ana Paula Tavares, ouviu-se Silvino Évora, poeta do Tarrafal – que voltamos a ver ao encontrar Princezito – dizer que se tornou mais cabo-verdiano fora do seu país, quando veio estudar para Portugal. “Antes de sair não gostava de ouvir Tito Paris, Cesária Évora. Quando tocava morna na rádio eu desligava. Chateava-me com a minha mãe de tanto cozinhar cachupa. E lá tinha saudades de cachupa.” Falava-se da diáspora.

“Em 1971”, continuou Silvino, “o meu pai saiu daqui e construiu o hotel Sheraton [em Lisboa], participou desde a primeira pedra até à última. Disseram-lhe: se tens a quarta classe ficas aqui no hotel até à tua reforma. Ele só tinha a terceira classe. Voltou para Cabo Verde e constituiu família.” À noite, quando se recordava a história, o timorense Luís Cardoso dizia: “E eu construí a PT [Portugal Telecom], em frente.”

Um Presidente poeta e leitor

Há uma pequena barbearia na esquina de uma das ruas da cidade que levam à praça Luís de Camões. Na fachada, está pintado o rosto do poeta francês Arthur Rimbaud. Seria, talvez, um pouco estranho cruzarmo-nos ali com o da “cerveja no inferno”, não estivesse este a passos do mítico Café Sofia, outrora poiso habitual dos poetas e onde ainda hoje se diz que Arménio Vieira, aos 75 anos, se senta a escrever poemas no telemóvel. Ele, prémio Camões de 2009, foi um dos homenageados no VI Encontro de Escritores da Língua Portuguesa, a par de Corsino Fortes, que morreu no ano passado, e foi lembrado por Germano Almeida.

Arménio Vieira, autor de No Inferno ou Fantasmas e Fantasias do Brumário, recebeu aquilo de que poucos se poderão gabar. Teve, por parte do seu Presidente da República, não meras frases de ocasião, que acompanhassem as insígnias postas no peito, mas meia hora de um discurso pensado e proferido de igual para igual. De um leitor para outro. De um homem do ofício para outro. Jorge Carlos Fonseca, chefe de Estado cabo-verdiano, também ele poeta, descreveu Arménio Vieira – que não estava presente – como “poeta irreverente, de sensibilidade invulgar” e “cinéfilo militante”. De Vieira disse que “qual Camões, dedilha a língua portuguesa”e, “leitor compulsivo, leu tudo o que havia para ler”. Não se escusou a tornar claro o que dizia. Fonseca evocou justificadamente a Bíblia, Shakespeare ou Schopenhauer. E ainda sobre Vieira, terminou: “Longa vida ao Conde!”

De fugida, perguntamos a Mário Lúcio, o ministro e poeta impreterivelmente trajado de branco, se continua a escrever um haiku por dia. Ele anui, sorridente. Minutos antes, encerrando o encontro, o ministro da Cultura afirmava: “O cabo-verdiano não lutou para se libertar da língua, lutou para libertar a língua.”

Falava-se, pois, da língua portuguesa. E quanto ao crioulo, que é como quem diz “síntese”, estará algures entre os textos escritos por um pão com manteiga ou por outra coisa qualquer, entre o que foi e não foi dito durante a visita do antigo campo de concentração do Tarrafal – “o médico dizia que não estava aqui para tratar mas para passar certidões de óbito”, ouviu-se -, o edifício do Sheraton e da PT ou Zeca Medeiros a cantar Cesária.

Em Cabo Verde. A jornalista viajou a convite da UCCLA

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