Ler o inventário feito por D. Fernando II descoberto no Palácio da Pena é como conversar com ele e descobrir um rei culto fascinado por outro rei.

O príncipe de Saxe-Coburgo-Gotha foi um homem de sorte porque “viveu dois grandes amores”, diz Hugo Xavier, conservador do Palácio da Pena, em Sintra, casa para sempre ligada a D. Fernando II. O primeiro, com D. Maria II, fez dele rei de Portugal; o segundo, com a cantora lírica Elise Hensler, reforçou a sua natural inclinação para as artes, a mesma que o tinha transformado logo à chegada ao país, em 1836, num coleccionador e mecenas atento aos valores nacionais.

Entre assuntos de Estado, festas e recepções a outras cabeças coroadas, o rei pintava, desenhava, gravava e ainda lhe sobrava tempo para brincar com os filhos – teve 11 com D. Maria, que morreu quando tinha apenas 34 anos – e para passear por Sintra e Lisboa, onde gostava de visitar ourives e antiquários, hábito que aliás mantinha sempre que viajava pela Europa. “O rei era um homem muito culto, um coleccionador ecléctico, voraz, comprador compulsivo de cerâmica, ourivesaria, marfins, esmaltes… Praticamente tudo nas artes decorativas lhe interessa”, diz Hugo Xavier, sublinhando a importância da colecção de ourivesaria portuguesa antiga que o monarca reuniu e a que o seu filho D. Luís viria a dar continuidade.

É precisamente esta colecção em que “está sempre à procura da singularidade, do requinte do objecto e de um certo portuguesismo” que ocupa agora boa parte do tempo que este conservador dedica à investigação. Xavier está a estudar um inventário manuscrito pelo próprio D. Fernando II que descobriu entre uns papéis comprados pela empresa que gere os principais monumentos desta vila que é património mundial, a Parques de Sintra-Monte da Lua, a uns herdeiros da segunda mulher do monarca, que viria a receber o título de condessa d’Edla (1836-1929).

O documento com 150 anos que inclui a descrição de um total de 224 peças cuidadosamente discriminadas pela mão do monarca em papel de carta pautado e com uma letra alongada, chegou às mãos do conservador do palácio enrolado e dentro de um saco branco de cambraia. As peças estão distribuídas por cadernos, sendo o primeiro e maior dedicado à ourivesaria e os outros dois aos marfins e aos esmaltes.

Uma das folhas deste inventário – precisamente a que falta ao original que Xavier identificou – fora já publicada numa obra que Ernesto Soares dedicou à actividade artística do rei (El-Rei D. Fernando II Artista, 1952, Fundação da Casa de Bragança). “Foi assim que soubemos que o dito inventário existia, mas o seu rasto perdeu-se durante muito tempo.”

Ler hoje este inventário, garante, “é como conversar com o rei”, acrescenta entusiasmado o conservador, já de luvas calçadas para virar as folhas, numa sala de trabalho do palácio, rodeado de peças à espera de cuidados de limpeza e de restauro, e tendo sobre a mesa uma salva de prata dourada do século XVI, exuberante e de produção portuguesa, que também pertenceu a D. Fernando II e que foi comprada no ano passado.

Desta relação de peças não fazem parte a pintura e a escultura, que também coleccionava, embora Xavier não afaste a possibilidade de haver inventários semelhantes nestas áreas. “O que temos aqui é um conjunto de peças de ourivesaria a que o rei está muito ligado, em parte porque algumas lhe foram dadas pela mulher e pelos filhos, em parte porque entre as mais importantes estão salvas e gomis [um tipo de jarro com a boca estreita] que, faz questão de escrever, são do tempo de D. Manuel I, uma figura que ele admira profundamente.”

Típico dos românticos

Garante Hugo Xavier que o monarca reconhece de imediato a originalidade e a qualidade da prataria civil quinhentista portuguesa e que a transforma no “grande foco da sua colecção”, “a melhor do mundo no seu género”. As peças de produção nacional deste período são ainda hoje, aliás, as mais disputadas nos leilões em Portugal e no estrangeiro, sublinha, onde podem atingir facilmente as centenas de milhares de euros. “São de enorme qualidade e talvez agradem a D. Fernando, também, porque há nelas um certo horror ao vazio que encanta as figuras românticas de oitocentos.”

A profusão decorativa destes objectos de aparato, “feitos para impressionar”, é a mesma que encontramos nas fotografias feitas depois da morte do rei, em 1885, provavelmente a pedido do seu filho e herdeiro, D. Luís I (1838-1889), que começou a reinar em 1861, depois da morte prematura do seu irmão mais velho, D. Pedro V.

Algumas destas imagens estão hoje nos arquivos da Pena e mostram o seu gabinete nas Necessidades – era neste palácio de Lisboa que tinha o grosso da colecção, lembra o conservador, já que a Pena era apenas residência de férias e de fim-de-semana – com paredes e móveis cobertos de pinturas e peças de ourivesaria , assim como duas secretárias, a que usava para escrever e a que mantinha para nela poder desenhar e pintar.

Nas fotografias não se nota, mas é bem provável que cada peça tivesse já uma etiqueta com um número para efeitos de inventário dos bens do monarca, indispensável à execução testamentária, diz Hugo Xavier. “Esse inventário faz o levantamento de tudo o que o rei tinha na Pena, nas Necessidades e nos chalés, e tem quase 20 volumes.”

Os seus principais herdeiros eram, naturalmente, os filhos (só três dos 11 que teve com D. Maria II lhe sobrevivem) e a sua segunda mulher, a condessa d’Edla (1836-1929), a quem ele deixa o Palácio da Pena, o que provocou um aceso debate público (D. Luís acabou por decidir comprá-lo,embora fosse o seu filho D. Carlos a fechar o negócio).

De realçar que, escreve Margarida Magalhães Ramalho em Os Criadores da Pena – D. Fernando II e a Condessa D’Edla, os filhos de D. Maria II e D. Fernando II tinham tido já grande dificuldade em aceitar o segundo casamento do pai e a harmonia que parecia haver entre o rei e a cantora lírica, que acabaram por viver 20 anos juntos, os mesmos que tinham de diferença de idades.

“Este documento é muito importante para que agora possamos perceber o que falta à colecção de D. Fernando que ainda temos” e cujas peças estão, sobretudo, no acervo do Palácio Nacional da Ajuda e no Museu Nacional de Arte Antiga. “Há muita coisa que não sabemos onde está porque foi deixada à condessa, que hoje tem dezenas e dezenas de descendentes. Muitas peças estarão em colecções estrangeiras e até em museus importantes.”

Hugo Xavier refere-se a instituições como o Metropolitan (Nova Iorque), “que tem um maravilhoso gomil e uma salva quinhentistas”, o Victoria & Albert (Londres) e o J. Paul Getty (Los Angeles). É na califórnia que estão, por exemplo, os grandes veados em prata dourada que se vêem numa das fotografias do gabinete do rei nas Necessidades, peças alemãs do século XVII.

“O documento é de cerca de 1866, altura em que tem 160 entradas só de ourivesaria. Como o rei não deixa de comprar até ao fim, é natural que a colecção ultrapassasse as 200 quando ele morre, 20 anos depois.”

Notícia corrigida às 12h: antes da chegada a Portugal D. Fernando tinha o título de príncipe e não de duque; foi D. Luís quem abriu o processo de compra da Pena à herdeira do pai, mas foi D. Carlos que fechou o negócio.

 

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