Certo dia, meus pais decidiram me levar a um bairro em expansão na cidade da Praia, o bairro de Ponta d´Água, para assistirmos a uma festa de Romaria. A festa de Nossa Senhora do Rosário, numa capelinha pacata e muito simples, onde se assiste à missa na rua pois na capela mesmo só cabem o padre, os ajudantes, as beatas e pouco mais.

No fim da missa fica-se quase uma hora a cumprimentar os amigos e conhecidos… fala-se, comenta-se, critica-se, ri-se, chora-se, enfim, o fim das missas, das festas de romaria, são um verdadeiro cenário de um teatro de muitas peças, enquanto se comem os famosos doces da terra.

No caminho de volta para casa, a comer nossos doces, passamos por uma rua larga, de muito movimento, muita música, com diversos ritmos, pois, nesses dias cada família decide exibir o seu repertorio.

Enquanto a percorríamos, eis que uma senhora nos chama. Paramos para cumprimentar e pergunto à minha mãe se a conhece. Ela responde que nunca a tinha visto antes.

A senhora nos convida, então, para almoçarmos com ela. Agradecemos e demos uma desculpa… o convite nos pareceu um tanto inusitado.

A senhora insiste connosco e nos diz: fiz muita comida para Nossa Senhora, venham comer comigo e comemorar esta grande festa.

Resolvemos aceitar e a seguimos para dentro de uma casa simples e modesta, com um quintal todo ele cheio de belas plantas, contrastando com a rua calorenta. Encontramos ali o marido da senhora, um tipo todo animado que nos cumprimenta com tanta alegria e com tanta simplicidade que em minutos nos sentimos amigos de longa data.

O almoço é um verdadeiro banquete, vão chegando outras pessoas que nos abraçam, somos apresentados pelos donos da casa, como os amigos de Txadinha (outro bairro da cidade da Praia). De conversa em conversa vão se descobrindo as afinidades e rapidamente forma-se ali uma grande família de mais de 15 pessoas.
A casa é pequena em termos de espaço, mas enorme em termos de emoção.

Entre muitos pratos típicos como o xérem, a feijoada, a cachupa, o guisado de cabrito e de galinha, o pudim de leite e os doces de papaia com queijo, cada um vai se servindo e repetindo pois afinal é festa, não se pensa em mais nada a não ser comer, conviver, rir e deixar-se levar.

Vejo a felicidade dos meus pais estampada nos seus rostos e nos “partes” (piadas) que vão contando. A conversa segue o seu ritmo, falam da infância e da juventude no interior de Santiago, de onde são os donos da casa, do Fogo e de São Vicente, por onde andaram meus pais e outras pessoas presentes e eu vou apreciando as belas histórias que me fazem inveja. Uma inveja boa de uma infância simples, do campo, do cuidar dos animais, do semear nos terrenos e hortas, das festas, das conquistas das meninas e meninos daquele tempo. Que tempo bom viveram. Mas que tempo bom vivemos igualmente, pois aquele encontro acontecia no presente, no presente da minha juventude e na cidade que me viu nascer, a cidade da Praia.

Chega o momento de dançar o funaná e abrimos a dança eu e meu pai. Os demais vão ao delírio, gritam e caem todos, desesperadamente felizes, na dança. Menos minha mãe e a dona da casa, mais tímidas.

E é a mistura do arquipélago a falar mais alto, são as ilhas a se encontrarem, a conviverem, são os bairros a darem as mãos e a se deixarem levar pela alegria do momento.

Vejo a satisfação daqueles lindos anfitriões, para eles tudo é perfeito, quanta felicidade convidar estranhos que passam na rua a tornarem-se amigos.

Foi uma simplicidade que nos tocou a alma e foi reciproco tenho a certeza que sim. Numa cidade de carros, de desconhecidos, de rotinas pesadas, de corrida desenfreada atrás do sustento, ainda há muita generosidade.

A generosidade de cozinhar para o estranho que passa na rua e insistir com ele para entrar e participar da festa.

O que senti naquela casa, naquela rua e naquele bairro é algo que me acompanhará até o fim dos meus dias.

Um bairro, que se assemelha a vários outros da cidade da Praia, onde se encontram pessoas simples, sem muita posse financeira, mas de um coração milionário de bondade e simplicidade.

Quando nos despedimos, todos caímos em lágrimas, lágrimas de satisfação, de alegria, de vontade daquelas horas de convivência se transformarem em algo eterno, e foram mesmo, pois estão presentes na memória de todos nós.

Não gravamos o nome de todos, mas não era preciso, pois os nomes são temporais e o que aconteceu naquela casa foi um encontro de almas.

 

PUBLICAÇÃO > RABIDANDI

 

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