A partir do final dos anos 50, milhares de trabalhadores portugueses entraram em França fugidos da ditadura de Salazar ou das más condições de vida em Portugal. Muitos instalaram-se em bairros de lata, sobretudo em Champigny e em Saint-Denis. As condições de vida eram precárias e miseráveis. É nesta altura que o jornalista e fotógrafo Gérald Bloncourt se interessa pela situação dos portugueses em França

|  GÉRALD BLONCOURT

Emigração – Ao telefone com o DN, a historiadora Marie-Christine Volovitch-Tavares, autora do livro ‘100 ans d’histoire des portugais en France’, falou sobre a transição atlântica de Portugal, o sonho de regresso dos emigrantes em França e sobre como a imagem da porteira e do pedreiro já não corresponde à realidade atual.

Chama-se Volovitch-Tavares. É metade portuguesa? Casada com um português?

Sim. Sou casada com um português e sou portuguesa de coração, se se pode dizer. Portuguesa de adoção. Mas é o meu marido que é português. É de uma cidade chamada Murtosa, na região de Aveiro.

Vem a Portugal muitas vezes?

Sim, muitas vezes, há 40 anos. Depois do 25 de Abril, vivi três anos em Lisboa. Na altura, como sou historiadora, fiz um doutoramento sobre a geração da extrema-direita portuguesa que formou Salazar. Depois voltámos para França. Era complicado continuar em torno deste tema. Por isso dirigi-me para o estudo da imigração portuguesa. Até porque tenho avós paternos que são imigrantes. Mas muito diferentes. Fiquei muito surpreendida por descobrir os imigrantes portugueses, mais diversos. Os que estavam em França tinham muita coisa que não coincidia com os meus avós, que tinham rompido totalmente com o seu meio de origem.

Marie-Christine Volovitch-Tavares com o cônsul geral em Paris, António Moniz, na apresentação do livro

  |  DR

Fala-se de um milhão de portugueses em França, muito integrados. Isso resulta da história da imigração portuguesa ou é mais questão de temperamento?

Há várias nuances a isso tudo. O número do recenseamento, de pessoas que se declaram portuguesas, mono nacionais, são cerca de 500 mil. Mas se avaliarmos, e não há estatísticas precisas, o número de binacionais, como o meu marido e as minhas filhas, fala-se num milhão de pessoas. Quanto à questão da integração ou não, é objeto de debate. Em relação aos italianos, aos polacos, aos argelinos, aos espanhóis, o que podemos chamar integração ou não é muito variável. Por um lado podemos dizer que os portugueses em França se integraram muito mais rapidamente do que os espanhóis, italianos, polacos… e é verdade que a visão da sociedade francesa em relação a eles é extremamente positiva.

Nem sempre foi assim, logo no início, nos anos 60 (nos anos 20 e 30 estavam cá mas ninguém se preocupava muito com eles porque não eram muito numerosos em relação a polacos, italianos, etc). Por outro lado… muitos portugueses sonham ir passar a reforma em Portugal.

Ainda há esse sonho de regresso? Mesmo nas gerações mais jovens?

Bom, quando mudamos de geração o problema não é o mesmo. Estava a falar da primeira geração. O problema é que depois há pessoas sufocadas no momento de realizar esse “sonho”, porque as coisas não se passam como tinham pensado. Há muitas mulheres que têm reticências por razões complexas e legítimas. Por um lado porque muitas portuguesas trabalhavam, tinham autonomia material e psicológica. E na reforma essa autonomia desaparece. Até porque muitas trabalharam vários anos sem fazer descontos, contando com a segurança social do marido, e só perceberam já tarde que era uma armadilha.

Depois, há algumas que acabam por ir para aldeias, mesmo que sejam as suas aldeias, voltando a mergulhar numa realidade em que as mulheres ficam presas em casa. Este não é um assunto que tenha abordado no meu livro, mas é muito contemporâneo. Quanto à segunda geração, penso que aí, uma coisa é vir de férias, outra é procurar emprego. Há o que queremos fazer e o que podemos fazer. Todos estes fatores jogam…

Mas voltando à questão da melhor integração…

Quanto à integração, há coisas que têm a ver com os portuguesas e outras que não têm nada a ver, que estão ligadas à evolução política francesa e ao facto de, por várias razões, as autoridades francesas, o governo e os patrões terem preferido receber imigrantes portugueses nos anos 60, em relação a outras imigrações, em particular a argelina. O sociólogo português que vive em França, Albano Cordeiro, trabalhou bem este tema. Chama-lhe o “para-raios” argelino. É verdade que muitos portugueses, de certa forma, tiveram oportunidade de se comportar de maneira a tornar a sua aceitação mais fácil na sociedade francesa.

Mas houve também uma política francesa, ao mais alto nível, de desejo de mais trabalhadores portugueses. Como tento mostrar no livro, houve uma certa hipocrisia das autoridades francesas que queriam mais trabalhadores portugueses mas não fizeram nada para os acolher bem. Assim muitas pessoas acabaram nos bidonvilles (bairros de lata) como o mais famoso, em Champigny-sur-Marne.

A relação entre os países ajudou?

De um ponto de vista histórico, o que foi importante foi que não havia contencioso histórico entre Portugal e França, e logo com os portugueses. Havia para outras populações preconceitos de longa data. Sem falar dos argelinos e outros magrebinos, havia a ideia que os espanhóis “são agressivos”, os italianos “são mentirosos”, os polacos, “são alcoólicos” e, tem graça, eram acusados de “andar atrás dos seus padres”. Bom, os portugueses não podiam andar atrás dos padres portugueses, porque tinham poucos à mão. Foi o clero francês que fez um enorme esforço de acolhimento.

Em relação aos portugueses não havia nenhum preconceito. Porque era um ângulo morto. Durante muito tempo havia pessoas em França, a todos os níveis, que achavam que Portugal era uma província de Espanha. Não era conhecido. E na medida em que não era conhecido, também não havia preconceitos sobre Portugal e os portugueses. Os franceses tinham completamente esquecido a presença dos soldados portugueses em França durante a primeira guerra mundial, e o meu livro começa com este assunto.

Portugal era pouco conhecido por estar no extremo da Europa?

Não diria isso , porque do ponto de vista histórico Portugal é um país Atlântico, esteve durante muito tempo ligado à Inglaterra… As comunicações com o resto do continente, durante muito tempo, fizeram-se por mar. Mesmo quando começa a história que estudei, há cem anos, os soldados portugueses chegaram por mar para estar na frente de batalha em França e desembarcaram em Brest. Os primeiros a ir de comboio foram os trabalhadores portugueses que chegaram a França depois do acordo de mão de obra entre França e Portugal – faltava mão de obra uma vez que os homens franceses estavam na frente.

É muito recente a viragem de Portugal para a Europa continental. A entrada na União Europeia trouxe essa novidade. E não havia em França uma ideia negativa sobre Portugal, não havia um contencioso histórico, Portugal não era um inimigo hereditário. Seja como for, a atitude dos imigrantes portugueses também foi positiva. Foi um conjunto de fatores que fizeram com que muitos encontrassem uma forma de inserção – prefiro a palavra inserção a integração.

Qual o papel das autoridades portuguesas?

Temos de ser honestos, as autoridades portugueses não tiveram grande papel na questão. Durante a ditadura, tiveram um papel completamente negativo, impediam as pessoas de sair. Depois… acho que as relações entre os imigrantes portugueses em França e as autoridades portuguesas eram… bom… “je t”aime moi non plus”. Por vezes os emigrantes portugueses acham que são mal amados pelos governos da pátria querida. Continuam a não ter direito de voto razoável, as instituições que tentaram criar para os representar não funcionam bem.

No dia 11 de junho, estive em Champigny durante a visita do presidente e do primeiro-ministro que vieram inaugurar um monumento no lugar onde existiu o maior bairro de lata com portugueses nos anos sessenta. Falaram das relações dos emigrantes com a pátria e ambos mostravam a intenção de melhorar as relações entre a mãe pátria e os seus emigrantes. Tê-los mais em conta a vários níveis.

Falava-me de várias vagas de emigrantes para França ao longo dos tempos. Hoje, os portugueses ainda estão associados à imagem da porteiro e do pedreiro?

Sim, os preconceitos têm longa vida. E a realidade não corresponde sempre aos preconceitos. Sou historiadora e não estudei isso. Mas sim, ainda é verdade. Há muitos filhos de emigrantes que, mesmo trabalhando na construção, já não o fazem com o mesmo nível de qualificação. Há uns anos, em muitas empresas de construção, os chefes de obra eram portugueses. É um nível superior daquele em que estavam os pais deles. E há muitas pequenas empresas ligadas à construção cujos proprietários são filhos de imigrantes portugueses ou portugueses que vieram para cá.

Agora a emigração portuguesa em França recomeçou de forma importante. Assisti há pouco a uma reunião no consulado de Portugal em Paris, onde estavam representantes de associações portuguesas que estão cá há muito. As relações com os novos emigrantes não são fáceis. No geral são pessoas que vêm de meios urbanos, enquanto os primeiros vinham de meios rurais. São pessoas com instrução, pessoas que talvez tenham acreditado que isto não era assim tão complicado, e que, confrontados com as dificuldades gostariam que os compatriotas os ajudassem. Mas os compatriotas nem sempre têm os meios.

Neste momento há um fluxo de portugueses a emigrar para França, mas também uma espécie de invasão francesa em Portugal? Os franceses descobriram Portugal?

Sem dúvida. Muitos franceses descobriram. No final dos anos salazaristas houve uma primeira, muito modesta, época de turismo francês Quando houve esforços feitos em Portugal, por exemplo, com a construção das pousadas. Depois do 25 de Abril houve um interesse muito grande em França pelo novo Portugal. Muitas pessoas vieram a Portugal, descobriram o país. Agora estão a voltar-se para Portugal muitas pessoas que iam de férias para países agitados por crises políticas, em particular no mundo árabe, ou em regiões mais exóticas que se revelaram perigosas.

Assim muitos franceses estão a descobrir um país que não conheciam. É o charme da descoberta, com muita gente simpática, que fala francês. Há muita coisa bonita para ver em Portugal. Ainda não é um país estragado pelo turismo. Tem muita vantagem. E materialmente, os preços são mais baratos do que em França. Por outro lado há pessoas que se instalam em Portugal para gozar dos benefícios que o governo português lhes concede. Em França não se diz que são emigrantes. São expatriados. É uma situação totalmente diferente. Fala-se muito disso e em certas zonas de Portugal estas pessoas até constituem uma população não negligenciáveis.

PUBLICAÇÃO > D.N.

 

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