A relevância dos autores da diáspora, e da emigração como obsessão dos que partem, mas também dos que ficam, dominou o primeiro dia do VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa na Cidade da Praia. No segundo dia, alguns jovens escritores assumiram a vontade de romper com a geração precedente.

(Cidade da Praia)

Os primeiros dias do VI Encontro de Escritores de Língua Portuguesa, organizado pela UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) na Cidade da Praia, Cabo Verde, foram dominados pelo tema da diáspora, tópico tão incontornável para os escritores que partiram como para aqueles que ficaram, num país que tem 500 mil habitantes e um milhão de emigrantes.

Uma diáspora que leva consigo o país para onde quer que vá, sublinhou esta segunda-feira, na sessão de abertura dos encontros, a presidente da recém-criada Academia de Letras de Cabo Verde, a escritora e jurista Vera Duarte. “A vida nas comunidades diasporizadas continua a processar-se ao ritmo do bater do coração da pátria distante: é o velho binómio ‘korpu ke skrabu ta bai, alma ke livre ta fika’” (o corpo que é escravo vai, a alma que é livre fica), disse Vera Duarte citando, em crioulo cabo-verdiano, as palavras do poeta Eugénio da Paula Tavares (1867-1930), que se exilou nos Estados Unidos em 1900.

O dia começara com uma homenagem ao escritor Corsino Fortes, primeiro embaixador de Cabo Verde em Portugal, que morreu em Julho do ano passado. Coube ao romancista Germano de Almeida fazer o elogio do poeta dePão & Fonema, dando-lhe lugar de destaque numa “plêiade de homens nobres a quem Cabo Verde deve deferência, respeito e homenagem”, por terem corporizado na sua escrita ou noutras formas de manifestação cultural o “sentimento de nacionalidade” que desembocaria em 1975 na independência do arquipélago.

José Evaristo de Almeida, que escreveu em 1856 o romance O Escravo(adaptado ao cinema por Francisco Manso em 2008), o panfletário Loff de Vasconcelos, o historiador Sena Barcelos ou o já referido Eugénio Tavares foram alguns dos nomes a que o autor de O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo prestou tributo, somando-lhes o posterior grupo da revistaClaridade, com Baltasar Lopes da Silva, Manuel Lopes ou Jorge Barbosa, e depois essa “nova geração, já mais politicamente consciencializada”, na qual releva autores nascidos nos anos 20 e 30, como Arnaldo França, Nuno Miranda, Ovídio Martins, Gabriel Mariano, Teobaldo Virgínio ou Onésimo Silveira. Germano Almeida, que acabou de lançar o romance Regresso ao Paraíso, acha mesmo que “continua a haver na nação cabo-verdiana um evidente deficit de reconhecimento” em relação a estes obreiros da identidade nacional.

A julgar pela sessão que abriu o segundo dia de trabalhos, na terça-feira, dedicada aos novos escritores de Cabo Verde, fica a impressão de que mesmo a geração do próprio Germano de Almeida não é propriamente venerada sem reservas pelos autores mais jovens. Picados por uma observação do poeta angolano José Luís Mendonça, que os aconselhou a ler os mestres e sugeriu que só valia a pena escreverem para os tentar superar, vários dos jovens autores presentes criticaram o desinteresse dos nomes mais consagrados da literatura cabo-verdiana pelo que está hoje a ser escrito pela geração mais nova.

Silvino Évora, poeta, ensaísta e editor da Sotavento – onde publicou em 2015 o seu mais recente livro de poemas, Tratado Poético da Cabo-Verdianidade–, foi uma das vozes mais críticas nesta sessão moderada pela autora angolana Ana Paula Tavares. “A nível da convivência das gerações há um vazio”, disse ao PÚBLICO, lamentando que os autores mais velhos não dêem “muito crédito” ao que está a fazer “a geração dos que têm menos de 40 anos. “Não porque o trabalho desses autores não preste”, acrescenta, “mas porque não querem conhecer: acham que há lugares cativos na literatura e não abrem espaço”. E diz que foi justamente para dar oportunidade de publicação aos jovens com “um mínimo de qualidade” que criou a Sotavento.

Logo no início da sessão, outra jovem autora, Chissana M. Magalhães, pioneira da blogosfera cabo-verdiana, já admitira que sentia nos novos autores um desejo de “corte” com a geração precedente. Mas essa ruptura não passa necessariamente por recusar os tópicos dominantes, e mesmo alguns processos formais, dos seus antecessores. Silvino Évora acredita que “há alguma evolução em termos estéticos”, mas nota que “temas do passado, como a emigração ou as secas, continuam presentes na nova literatura cabo-verdiana porque muitos desses problemas persistem ainda hoje”. E reconhece que “houve um momento em que foi preciso afirmar, também através da literatura, a identidade cabo-verdiana, a nação cabo-verdiana, e que “o povo precisava dessa visão”. Acha que os autores desse período cumpriram o seu papel ao “tentarem afastar-se o mais possível do complexo da literatura ocidental e doutras paragens para poderem afirmar em Cabo Verde um princípio literário próprio”.

Germano de Almeida já lembrara que Corsino Fortes, ao serviço dessa “construção e valorização de uma identidade”, não hesitara por vezes em apelar à “plena bazofaria”, e citou a título de exemplo a sua afirmação de que se a “ONU escolher Cabo Verde como uma vela, o mundo não dormirá no escuro”.

Silvino Évora argumenta que essa fase foi necessária, mas está ultrapassada: “Já sabemos quem somos, temos a nossa autonomia, e estamos livres para voar com quem for possível”. E a Internet veio fornecer aos jovens autores cabo-verdianos o lugar ideal para encontrarem companheiros de voo nas mais imprevistas paragens. “Pesquisamos poesia, lemos poemas em espanhol, recebemos poemas de todas as partes do mundo, não temos por que nos restringir à literatura de Cabo Verde”, diz o escritor.

O exclusivo da saudade
Se Silvino Évora contribuiu para aquecer o debate no segundo dia, já enquanto moderador da mesa de abertura, dedicada à diáspora e à insularidade, elegeu uma frase que fora dita por Vera Duarte – “é muito mais aquilo que nos aproxima do que aquilo que nos afasta” – para encerrar a sessão com um voto de confiança nos laços que unem os países de língua oficial portuguesa e os respectivos escritores.

Na sua comunicação, Vera Duarte inventariara os autores cabo-verdianos da diáspora, desse Cristovão da Costa, dito “o Africano”, que nasceu em Cabo Verde em 1525, e a quem se devem um Tratado das Drogas e Medicinas das Índias Orientais e um Tratado em Louvor das Mulheres, até ao poeta Daniel Filipe, que após uma fase em que cultivou uma poesia de cariz mais tradicionalista, iria aderir ao neo-realismo e celebrizar-se como autor do poema A Invenção do Amor.

Defendendo que a diáspora está inscrita no ADN dos cabo-verdianos e que, para lá das motivações económicas ou políticas, ela reflecte também “a busca dessa outra dimensão mais ampla, não insular, que lhe advém da sua remota origem continental” – Cabo Verde foi originalmente povoada por africanos vindos da Guiné e de outros lugares, e por europeus de várias proveniências –, Vera Duarte sugeriu ainda que o exílio não apenas não atenuava, como tendia a intensificar o sentimento identitário dos que partiam.

A poetisa Goretti Pina, de São Tomé e Príncipe, corroborou essa ideia com o exemplo da sua própria mãe, nascida em S. Tomé, mas filha de uma cabo-verdiana que para ali fora ainda criança. Sem conhecer Cabo Verde, sempre falou o crioulo do país e nunca aprendeu o de S. Tomé, garante a filha, e seguia o mesmo princípio na culinária.

A intervenção de Goretti, que leu um poema, Bagagem, em que enuncia tudo o que levou consigo quando partiu de S. Tomé – “Trouxe as praias,/ os cheiros/, os peixes frescos,/ o vento atrevido de gravana (…)” –, também serviu para lembrar que essa persistência da identidade, e a correspondente saudade, nos que deixam o seu país não é um exclusivo cabo-verdiano.

O público ouviu ainda outro poeta, Yao Jingming, pseudónimo de Yao Feng, um autor nascido em Pequim e radicado em Macau, ler alguns breves poemas demonstrativos de que consegue escrever bem numa língua que não é a sua. Veja-se este, um dos que leu na sessão: “o peixe no aquário/ bate com a cabeça/ em todas as direcções// a agitar-se o mar, ao longe”.

Outro participante nesta mesa inaugural foi o romancista e ensaísta português Miguel Real, que lembrou a atribulada história da “estranhíssima palavra ‘lusofonia’”, explicando que foi usada no pós-25 de Abril por uma direita nostálgica do império, que lhe “imprimiu um valor conservador”. Conotação hoje dissipada, acrescentou, “pelo “senso comum histórico de ex-colonizados e ex-colonizadores”, que se “apropriaram da palavra” e a “libertaram rapidamente dessa semântica de direita”.

Potencialmente mais polémica foi a sua afirmação de que “a literatura portuguesa é hoje mais cosmopolita que identitária” e que “os autores que escrevem sobre a identidade nacional, como Agustina Bessa Luís ou Mário Cláudio, são muito pouco traduzidos por não terem interesse para o mercado internacional”. Real defendeu ainda que “não foi por acaso” que José Saramago, “desde a História do Cerco de Lisboa, nunca mais publicou um livro sobre a realidade portuguesa”.

O programa paralelo do encontro, que prossegue esta quarta-feira, dia 3, com uma sessão dedicada à poesia e à música, com os portugueses José Luís Peixoto, José Fanha e Zeca Medeiros, o cabo-verdiano Abraão Vicente e a angolana Ana Paula Tavares, incluiu ainda uma visita à Cidade Velha e à sua fortaleza, a 15 quilómetros da Praia, a primeira cidade fundada pelos europeus nos trópicos, e a inauguração, no Centro Cultural Português da Praia, de uma interessante exposição sobre a Casa dos Estudantes do Império, instituição por onde passaram muitos dos futuros líderes das lutas de libertação, de Agostinho Neto e Amílcar Cabral ao ex-presidente cabo-verdiano Pedro Pires.

E depois, claro, há o programa ainda mais paralelo, que decorre às refeições, nas viagens de camioneta, nas tertúlias nocturnas. Não será tão edificante como o programa oficial, mas tem momentos instrutivos, como o do escritor Nuno Rebocho, radicado na Cidade Velha, a falar do embondeiro onde Darwin deixou a sua marca quando passou por Cabo Verde, 20 anos antes de escrever A Origem das Espécies, ou o poeta moçambicano Luís Carlos Patraquim a explicar que a letra de Uma Casa Portuguesa, imortalizada durante o Estado Novo pela voz de Amália Rodrigues e outros, foi na verdade escrita por Reinaldo Ferreira e Vasco Matos Sequeira para ironizar com a decoração salazarenta de uma boîte moçambicana.

Num desses convívios nocturnos, improvisou-se ainda uma sessão de música e poesia, com José Fanha a recitar poemas dos presentes – quando anunciou que ia dizer um de Patraquim, foi agraciado pelo autor com um afectivo dedo do meio em riste – e o açoriano Zeca Medeiros a cantar acompanhado por excelentes músicos cabo-verdianos, um dos quais é aliás vereador da Cultura da Câmara da Praia. O escritor brasileiro João Paulo Cuenca, que nunca tinha ouvido Zeca Medeiros, comentava surpreendido: “Ele canta como o Tom Waits.”

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